Trata-se a um só tempo de uma reflexão acerca do ensino superior de jornalismo e da qualidade da imprensa no país. O título de bacharel em jornalismo é obtido após 4 anos de graduação e com a apresentação de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Em janeiro deste ano foi a minha formatura, enfim jornalista por formação, momento de muita felicidade para mim e minha família. Disponibilizo neste espaço o meu TCC, o qual foi construído com muita dedicação. O trabalho foi feito em parceria com Daniela Sodré.
Tema:
COMUNICAÇÃO, TECNOLOGIA E MEDIAÇÕES CULTURAIS: um estudo de recepção das mensagens da EMBRAPA, veiculadas no Jornal do Trópico Úmido, junto aos jovens agricultores, enquanto culturas populares
Resumo
A visibilidade de temas científicos e ambientais na mídia impressa com foco na aplicabilidade dos estudos tecnológicos: uma análise sobre a divulgação das tecnologias geradas pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) no Jornal do Trópico Úmido, junto à juventude rural do Pará. Metodologicamente, a pesquisa segue as diretrizes de um estudo de caso que tem como público–alvo os jovens agricultores
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Nos anos oitenta, com a disseminação dos trabalhos do teórico italiano Antônio Gramsci, desenvolvidos sobre hegemonia, especialmente aqueles relacionados à cultura, Canclini e Martin-Barbero procuraram atualizar esses estudos no âmbito da comunicação. Nesse sentido, a comunicação passa a ser compreendida como um fenômeno indissociado da cultura e dentro dessa ótica, o conceito de dominação se desloca para o de hegemonia. Na concepção de Gramsci, hegemonia deve ser entendida como “a capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é hegemônico, mas sim marcado por profundas contradições de classe” (GRUPPI, 1978, p.91 e 92). Daí, o próprio Gramsci ressaltar que “uma classe é hegemônica até o momento em que através da sua ação política, ideológica e cultural consegue manter articulado um grupo de forças heterogêneas” (Ibidem).
Ressalta-se que a contribuição mais importante para o tema da Cultura na sociedade de classe, dentro do paradigma marxista, encontra-se na obra de Antônio Gramsci, fundamentalmente porque se apóia no binômio: cultura hegemônica - cultura subalterna. Gramsci é o primeiro marxista a examinar a ideologia das classes populares como conhecimento por elas acumulado e as suas maneiras de ocupar-se com a vida.
O conceito de popular adotado pelos teóricos latino-americanos, implica na necessidade de incluir não só aquilo que as classes populares produzem culturalmente, mas também o que consomem e como se apropriam dos bens simbólicos. Implica na exigência de pensar o popular na cultura não como algo enclausurado no passado, mas articulado à modernidade, aos cruzamentos e complexidades do urbano e do massivo e, sobretudo, num olhar/ posicionamento do investigador livre de preconceitos e maniqueísmo que, de antemão, excluem e adjetivam as produções e práticas dos populares, invalidando-as ou sacralizando-as.
O popular ao qual se refere neste estudo não pode ser associado à noção que o vincula ao popular puro; aquele que é imediatamente identificável pela nitidez de suas características; ou aquela noção de senso comum que o caracteriza pela vulgaridade - o popular inculto.
Canclini considera o termo mais adequado - Culturas Populares - o uso no plural como importante porque cada grupo dá resposta diferente às suas necessidades vitais. As culturas populares existem porque há toda uma reprodução desigual da sociedade que gera uma apropriação desigual dos bens econômicos e culturais por parte de diferentes classes e grupos na produção e no consumo, ou, ainda, devido à elaboração própria de sua condição de vida e uma satisfação específica de suas necessidades nos setores excluídos da participação plena no produto social. Ressalta, ainda, o autor que as Culturas Populares existem porque há uma interação conflitiva entre as classes populares com as hegemônicas pela apropriação dos bens. (CANCLINI, op. cit. p. 49).
Analisando a interação da comunicação do jovem rural, caracterizado como “leitor do JTU, à luz da teoria de Canclini que trata da relação das culturas hegemônicas e as culturas populares, no sentido de que as culturas populares reconvertem os seus códigos para “participar” da cultura hegemônica”. Essa reconversão, entretanto não se dá de forma automática e nem linear. A reconversão das culturas populares se dá num processo de renegociação que sofre a influência das mediações das culturas populares.
Método
Para a execução deste trabalho, realizou-se a pesquisa exploratória com base no procedimento técnico do estudo de caso. Procurou-se, especificamente compreender os jovens agricultores como um público que emerge com uma cultura indissociada da comunicação como um processo, os jovens passam a ser vistos como uma cultura popular, ou uma cultura, cujo sujeito é o próprio receptor; aquele que dá sentido às mensagens recepcionadas na recepção; onde o uso passa a ser visto no seu cotidiano, ou mais especificamente, o que diz Canclini, nas suas pluralidades, heterogeneidade, ou culturas populares.
Intencionalmente, foi aproveitada a realização do I Encontro da Juventude Rural do Nordeste Paraense, realizado em Salinas, no período de 28 a 30 de agosto de 2009. O qual teve como tema: Jovens Rurais lutando por seus direitos. O evento teve como sede, o município de Salinópolis no Estado do Pará, tendo como base de apoio a Comunidade Alto Pindorama onde foi congregada a participação de 250 jovens camponeses.
É interessante, lembrar que os pontos de discussão no Encontro, basicamente, todos, foram pertinentes aos objetivos deste trabalho, como por exemplo, a visão que se tem hoje do público rural; a sucessão rural que foi outro ponto ressaltado, pois é preciso garantir condições para que o jovem permaneça no campo, valorize sua identidade e dê continuidade a sua produção agrícola, o que parece bastante relevante com o objetivo deste trabalho.
Segundo dados do MDA, existem hoje no Brasil 4,8 milhões de estabelecimentos rurais, 85% são familiares (4,1 milhão) e ocupam 30,5% da área agrícola total, os quais são responsáveis por 38% da renda bruta total. Assim, 40% da produção agrícola total são oriundos da agricultura familiar, sendo que 60% dos alimentos consumidos pela população brasileira vêm das pequenas propriedades.
Portanto, a partir desta perspectiva observa-se a necessidade de incorporar e dinamizar novas tecnologias para os agricultores familiares, pois se trata de uma questão de segurança alimentar e garantir o acesso as novas tecnologias é um processo dinâmico que está ligado também a EMBRAPA, enquanto empresa pública e pioneira na produção de conhecimento. Para isso, é preciso repensar a forma de distribuir informação e interagir com os jovens camponeses. Os desafios são muitos, mas a juventude do meio rural está dando um grande passo ao se propor a pautar tais conjunturas e estar aberta para concretizar novos formatos de sua interação com o meio.
Público-alvo
O público-alvo delimitado para esta pesquisa são jovens camponeses entre 16 e 32 anos. Do total de 250 jovens participantes do Encontro, foram entrevistados 80 jovens agricultores.
Jovens agricultores enquanto culturas populares
Pensando a juventude camponesa enquanto culturas populares, retoma-se as idéias Canclinianas que apontam a necessidade de se reconhecer a autonomia das culturas, ou seja, sua construção cotidiana de modo de vida. Para o autor, é na esfera do cotidiano que o modo de vida pode ser concretamente observado. Portanto, o cotidiano assume um papel relevante quando se busca compreender as práticas culturais dos segmentos populares, pois é nele que o sujeito compara e viabiliza, ou não, as propostas hegemônicas, sustentando os seus hábitos ou costumes e o de seus grupos aos quais essas culturas populares pertencem. (HELLER, Agnes, 1989, apud SAMPAIO, C. A. 1997).
As hipóteses, análises e discussões, assim como o trabalho na íntegra, podem ser conferidos aqui.
Agradecimentos
A minha orientadora, Dra. Cenira Sampaio (Doutora em Agroecossistemas Sustentáveis da Amazônia), pelo exemplo de profissional, pelo acolhimento inicial na UNAMA em realizar esta pesquisa, pela contribuição, sugestões, críticas, apoio e orientações durante todo o desenvolvimento deste trabalho;
Ao Mestre Francisco do Nascimento Felix, pelo aprendizado de levantamentos estatísticos imprescindíveis para o desenvolvimento do trabalho;
Aos jovens agricultores que contribuíram solicitamente em participar da pesquisa. E a atenção dada a este trabalho, no entendimento de que o direito à informação deve ser um bem de todos e que me ensinaram que a luta por direitos no campo começa pela união e organização dos trabalhadores rurais;
A minha parceira de estudos nesta conclusão de curso, Daniela Sodré, pela compreensão, dedicação e esforço para realizar este TCC;
Todas as pessoas que de alguma forma colaboraram para a execução deste trabalho, mesmo que de forma indireta.

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