quinta-feira, 31 de março de 2011

João Cabral de Melo Neto - Camarada cacto*



João Cabral de Melo Neto é o principal representante da geração de 1945. A principal característica nos textos desse poeta é o debate entre o ser humano e ele mesmo. A ausência de algo que completa o ser humano é corporificado por meio de substantivos que marcam seus textos poéticos.

Dessa forma, a poesia serve para completar essa angústia, ou até mesmo para enfrentá-la. O ''poeta cerebral'' diferencia-se daqueles das geração anteriores, porque, em seus textos, somente, há espaço para o essencial, sua reflexão estética consiste em despertar no leitor o pensamento crítico. A denúncia social é feita por intermédio da riqueza que falta ao Brasil, e não pela descrição da pobreza, aspecto dos modernistas de 1922 e da geração de 1930.

Helanny Torres




Retrato à sua maneira

(Poema de Vinícius de Moraes para João Cabral de Melo Neto)


Magro entre pedras

Calcárias possível

Pergaminho para

A anotação gráfica

O grafito Grave

Nariz poema o

Fêmur fraterno

Radiografável a

Olho nu Árido

Como o deserto

E além Tu

Irmão totem aedo

Exato e provável

No friso do tempo

Adiante Ave

Camarada diamante!


*Resposta a Vinícius de Moraes

Camarada diamante!

(João Cabral de Melo Neto)



Não sou um diamante nato

nem consegui cristalizá-lo:

se ele te surge no que faço

será um diamante opaco

de quem por incapaz do vago

quer de toda forma evitá-lo,

senão com o melhor, o claro,

do diamante, com o impacto:

com a pedra, a aresta, com o aço

do diamante industrial, barato,

que incapaz de ser cristal raro

vale pelo que tem de cacto.

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