segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Povos da América Latina, os Quechua equatoriano

        
       
        Marq'anakuy, que significa abraçar um ao outro, na língua Quechua, encarna de modo fosfórico o ressurgimento da discussão sobre identidade do povo equatoriano. No documentário de Juan Martín Cueva, Os equatorianos: este maldito país, um discurso de um militante político chama a atenção para o conceito de nação, que deveria incorporar  a ideia de espiritualidade própria. Considerei muito feliz essa argumentação, e embora abstrata, consistente. Ousaria dizer, para o pesadelo dos jurisconsultos, que até poderia ser incorporada a um dos pilares para o reconhecimento de Estado. Mas antes que haja protestos dos teóricos mais conservadores de Direito Internacional Público, volto a questão para a objetividade que mudanças sociais podem provocar na vida de um povo.

        A concretude da exclusão por razões econômicas está muito além dos bens materiais que não se pode consumir. A diferença está na discriminação. Social, cultural, étnica, aspectos que mais gritam quando se trata de desigualdade. Os povos Quíchua da América Andina sofreram desse discrime, unidos se organizaram, e ajudaram a fundar a CONAIE, Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador, na pauta dessa instituição está a construção de uma imagem positiva da identidade indígena, há tanto negada e tida à margem da sociedade equatoriana. Ainda, nesse âmbito, segundo o documentário, há a concepção de que a exclusão se dá, porque o outro não existe, e logo não é respeitado.

        Entre os símbolos dessa luta, tem um em particular que se destaca, que é o pancho vermelho, o qual representa o sangue derramado pelos indígenas. Um depoimento de uma Quíchua é bastante interessante, quando jovem, ela participou de um concurso de beleza, e sua mãe lhe disse que ela não era como a maioria das outras candidatas, moças de olhos claros, o que  a fez perceber que existia uma chamada ''estética impura''. Exclusão circunscrita nos parâmetros de Adônis. Outro fato curioso é que não se podia registrar nomes Quíchua nas certidões de nascimento, podia se registrar nomes estrangeiros, sem significado, qualquer nome, menos Quechua. Exclusão mais que etimológica e fonética. Ao mesmo tempo, no documentário, o músico Jaramillo Aymara mostrou um pouco da sua vida no Equador, e apesar do sobrenome boliviano, e das suas origens Aimará, outra etnia rica em cultura, fez questão de assumir seu nome, para não velar codinome, nem alcunha imposta, tampouco ''vestígios de estranha civilização''.

        Incluir, aceitar, abraçar o outro. Igualar. Tornar igual. Sentimentos que vão luciluzindo no horizonte da humanidade. Libertando conceitos, embora pré-conceitos estejam se auto escravizando, e talvez se rendendo a um novo paradigma dos novos tempos.  A luta reclama existência, a realidade é que os Quechua não podem ser apagados. Respirar essa diversidade dos povos da América Latina é respeitar que há espaço para todos e todas. A alegria está estampada na cara desse povo, que só quer ser feliz, e se sentir pertencente ao seu país, a sua comunidade. A palavra de ordem é Marq'anakuy.




Helanny Torres

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