Seis décadas, 60 anos, mais de meio século de correspondências amorosas. Com apenas barbante e clips poderia se fazer uma exposição de arte (ou seria de amor? ou os dois?) das cartas trocadas entre os dois durante essa luta pela sobrevivência da existência da esperança. Esperança de que talvez os dois pudessem ficar juntos, nem mesmo que fosse num pós-vida ou numa outra vida.
A eternidade desse sentimento os tornava cúmplices dessa trégua, sem tréguas. Trégua que os separava de ficarem, enfim, juntos. E sem tréguas, porque não iriam descansar até ficarem juntos. Por isso se utilizavam desse subterfúgio, dessas cartas para manterem viva a chama, nem que depois fosse preciso queimá-las para fazer uma tocha, e iluminar caminhos, vestígios que os conduzissem ao reencontro. Mil anos, ou mil e uma noites, não importava, estavam dispostos a esperar.
As atitudes dela o intrigavam. Curioso de certo episódio, uma vez, ele ousou ficar em silêncio, silêncio que perdurou semanas. Ela invadiu o parlamento inglês, nos anos 1940, durante a 2° G.M., para protestar contra a guerra e os campos de concentração nazista. Portava uma bandeira branca. Melhor, estava envolta numa bandeira branca, despida, nua e pintada de vermelho-sangue. Foi uma verdadeira polêmica para a época. Atual para nossa geração, escândalo para a sociedade britânica, que se melindrava com os horrores do holocausto.
Em outra ocasião, mesmo com rugas no rosto, e já visíveis alguns fios de cabelo branco, ela foi a público denunciar abusos de mulheres que eram obrigadas a se vender em troca de comida. A esposa dele (sim ele havia se casado com outra mulher, e ela havia se casado com outro homem) sempre a criticava. - Uma mulher envolvida com política, devia ser comunista- dizia. A esposa num rompante de ciúmes não suportava ver a admiração que seu marido tinha por aquela mulher, mesmo que isso significasse, em algumas vezes, ir contra suas convicções. Logo, sempre que tinha chance a desqualificava perante seu marido.
Ela o via nos jornais, o ouvia no rádio. Aquele homem influente e poderoso largaria qualquer coisa para atender a um chamado dela. Quantas vezes ele deixou seu gabinete para ir prestar ajuda pessoalmente. Certa vez, ela presenciou uma conspiração para depô-lo, e tratou de avisá-lo. Ele, homem sagaz, agiu rápido e virou o 'feitiço contra o feiticeiro'.
Não só de ditados viviam aqueles dois. Havia também certo trecho de uma historiografia que tinha sido distorcida por ambos. ''Maldição eterna para quem ousar recordar-se das nossas dissensões passadas'' (Caxias). E eles pareciam viver aquela maldição. Para ela, ele era seu ''mais querido''. O elefantinho da Índia (na mitologia Hindu, esses primeiros seres tinham asas e brincavam perto das nuvens) era para eles como um amuleto. Onde viam esse símbolo lembravam um do outro. Como se antes tivessem sido eles mesmos a voarem e a brincarem perto das nuvens.
- Os olhos não envelhecem. Repetiu a neta dela ao homem que servia o chá. Com aquele ar risonho que só as crianças tem ao aprender alguma coisa nova. Anos mais tarde, aquela neta, na vida adulta, venderia aquelas velhas cartas da sua avó, junto com aquele velho baú, que apenas entulhava a sala. Pelo menos quem comprasse aqueles manuscritos saberia reconhecer o valor daquelas palavras ruídas com o tempo. E, assim, salvaria a poesia. Com o passar do tempo, os olhos dessa neta envelheceram.
Não foram amantes. Não iriam trair eles mesmos. Naquela vida, eram amigos. Havia algum código secreto naqueles olhos, que se entendiam, e que se comunicavam, na mais plena harmonia. Algo que vinha de antes, de muito antes. Dizem que as Almas Gêmeas vivem muitas vidas e sempre se encontram, de uma forma ou de outra. Podendo ficar juntas ou não. Diz-se também que caso um dos dois se encontre num nível de consciência inferior ao do outro, o amor não poderá ser consumado. Teorias. No entanto, ela lembrou desde o primeiro momento em que o viu.
Silenciosamente, a inexatidão daquele dia em que ele partiu a deixou estática. O tempo parou. As nuvens desapareceram, não havia nenhuma no céu. Mesmo ele tendo partido primeiro, ela tinha que continuar a fazer o que deveria fazer. Não podia interromper sua vida, deveria continuar a viver. Consciente ou não, não deixaria que aquelas lembranças se perdessem, e guardou as cartas num baú.
Anos após sua morte, a esposa dele a visitou, para pedir perdão. Os rumores sobre o que ela havia feito, agora se confirmavam. A esposa havia retirado o coração do marido, encravado espinhos, embebido com éter e enterrado do outro lado do Atlântico, no chamado ''outro ocidente''. Bruxedo que certo alquimista ensinou a preços altíssimos, dívida a ser cobrada após o fechar dos seus olhos. Por isso estava desesperada, temia que a cobrança viesse ao bater as botas. Tudo isso para se vingar do marido, que a preteriu por outra; ela queria impedir que aqueles dois viessem a viver o amor numa outra vida, se é que isso existia, ela não era muito crente, mas o seguro morreu de velho.
Quem tiver espinhos no coração, deve ter muita dor no peito, pensou. O que era afinal a plenitude do amor? Mesmo vivendo décadas por entre cartas, e depois daquela revelação assustadora e desumana, ela se perguntou se um dia aqueles dois amantes iriam se encontrar, mesmo depois de milênios. O marido dela não se importava com as cartas que ela trocava com outro homem, tudo isso era bobagem (pensava diferente da outra preterida), ele era um homem promíscuo, de muitas paixões, talvez por isso ela tenha se casado com ele, para não importuná-la nessa correspondência.
Quando ela se foi, sua neta jogou suas cinzas no oceano. Não sabia o motivo porque sua avó tinha se interessado tanto por correntes marítimas nos últimos tempos, havia livros, bússolas e mapas. Sua neta fez conforme mandava o testamento. As massas de água que se locomovem não interagem com as águas dos lugares que percorrem. Descoberta interessante para alguém que sabia para onde queria ir.
P.S: Texto inspirado da história ''O grande amor de Churchill''. Os fatos narrados aqui não condizem com a realidade, tampouco com a história original.


7 comentários:
Eu me lembrei do nosso papo, um dia, sobre amores (im)possíveis. Há amores que devem se manter mesmo na ilusão, porque, depois de tanta imaginação, ver tudo desconstruído pela realidade... não é legal!
Melhor acreditar que tudo poderia ter sido lindo ou, que ainda será, numa pós-vida ou numa outra vida. =D
beijo
Coincidentemente, tb li esse artigo na Piauí esta semana. Interessante a sua abordagem do tema. Como a Luíza disse, há amores que não se consumam, mas permanecem vivos por décadas e, talvez, supressem a vida presente. Eu acredito em almas gêmeas. E vc? (vou procurar um elefantinho com asas! Será a minha relíquia!)
Helanny, que texto forte!
"Quem tiver espinhos no coração, deve ter muita dor no peito."
Eu tenho dó de quem passa sua vida inteira imaginando para si uma vida que não foi a sua: uma história de amor, uma carreira, riqueza ou sei lá o quê... Situações que não se concretizaram, mas passaram a rondar o imaginário da pessoa, como algo factual.
Viver tem que ser real!!! Venha o que vier!! Deus me livre de ficar só imaginando como seria se... Ou como será na próxima vida se... Ai, que agonia! A vida é uma só, temos que aproveitá-la! rsrs
Bjo,amiga! Parabéns pelo blog! :)
Sônia Elisa
Luma, ilusão e realidade brindam nossos sonhos. Esse brinde se confunde com a esperança de vê-los realizados.
A construção do mito do amor idealizado pode ser a fuga de algo maior, como o medo de viver o amor real. Por outro lado, há aqueles mistérios que, mesmo tentando uma vida inteira, são improváveis de se desvendar, que é o caso do amor que transcende a qualquer ilusão, o amor verdadeiro, *o amor que não se concretizou, e que vai viver até debaixo d'água, nem q se passem milênios' ;)
beijos
Fernanda, uma amiga nossa leu esse artigo e, por algum motivo, lembrou de mim. Essa matéria me inspirou muito, após escrever esse conto, até me recordei daquele texto da Cecília Meireles, de como ela escreveu o Romanceiro da Inconfidência.
Segundo Cecília, o Romanceiro ''foi se compondo'' e ''não foi sendo composto''. Era preciso ouvir a 'voz irreprimível dos fantasmas', respeitar essas vozes que falavam, que se confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história.
O curioso é que o único artigo que li, p/ escrever esse conto, foi o que está linkado no blog. Após terminá-lo, fui procurar outras fontes e, surpreendentemente, encontrei outras matérias que de alguma maneira se ligavam com o conto q escrevi. Uma delas foi, justamente, sobre um passeio de elefante, na Índia, que Churchill e sua amada fizeram, quando ainda eram jovens, e de como esse passeio lhes tinham proporcionado imensas alegrias.
Há quem não acredite em almas gêmeas, mas que elas existem, ah, isso sim. Eu acredito. :)
Quando encontrar, quero conhecer seu elefantinho com asas.
beijos
Sei o que é isso, pois tive alguns amores platônicos, preferi deixar assim, pois sempre que me aproximava mais da pessoas, o castelo ruía.
Tudo vale a pena, qdo a alma não é pequena! Dito popular antigo, mas em plena validade.
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