terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Raí, jogador de futebol, ladrilhador


O apito ecoou em terras paraoras. Era a hora da passagem do carteiro. Antes da chuva, ele trazia notícias de longe. Depois da chuva, o cheiro da floresta se confundia com o cheiro da saudade. Essa paisagem urbana ilustra a história de seu Raimundo, que chegara em Belém do Pará, cearense, fazedor do seu destino. Vinha do sertão brasileiro, de Messejana, do árabe masjana, que significa prisão. Veio para ganhar liberdade Brasil afora. Livre para encontrar a mulher que ladrilhou a história do seu caminho, Guiomar. Villa Lobos a parte, aos 30 anos, seu Raimundo era íntimo dos livros. Entre cartas, ele vivia. Trabalhava nos correios, na capital paraense.
O migrante nordestino, trabalhador, também ladrilhador, no melhor estilo espanhol – metáfora para quem molda o espaço a seu favor e marca ali sua presença, mudou para a cidade de Ribeirão Preto. Casado com Guiomar, pai de família, rumou para São Paulo. Pois como não podia deixar de ser, a geografia mostra o traçado, rota de muitos nordestinos em busca de oportunidades em terras paulistas. Lá encontrou muitos amigos da sua terra natal. Naquele tempo, as pessoas não viviam conectadas. Elas, simplesmente, viviam. Não existia iPad, iPhone, iPod. Existia ai pode, pode filhos, pode alegria, pode vida. Pela gravidade do amor, foram 11 gestações. É muito amor. Fora do útero materno, sobreviveram seis.
Astros. Paixão. Filosofia. Estava escrito nas estrelas. Sócrates, primogênito de Raimundo e Guiomar. O nome anunciava que a astronomia da antiguidade iria dar lugar a natureza de esportista. Depois veio Sófocles e Sóstenes, que se tornaram engenheiros. Raimundo, médico. Raimar, bacharel em direito e músico nas horas vagas. E Raí, o caçula, craque do futebol. Formavam um time de vôlei completo, mas o talento estava nos pés. Com uma turma dessas, as meninices e brincadeiras mirabolantes não ficavam no quintal. Dona Guiomar ficava louca, como previsto, quando a bola acertava alguma canela descuidada, o divertimento continuava na rua, num campinho perto dali.
Mãe e pai zelosos. A afeição abraçava a família e estendia-se aos agregados. Parentes vinham de longe e moravam ali com eles. O pai Raimundo trabalhava arduamente para dar um tesouro aos filhos, a educação. O menino Raí nasceu quando o pai já estava melhor de vida. A timidez do menino era invadida pela extroversão em campo. Os laços de afeto e amizade com os irmãos perduraram por toda vida. Admirava Sócrates, o irmão mais velho, que havia saído cedo de casa, para conquistar o Brasil com sua intimidade com a bola. 
O tempo passou. O menino parece que cresceu da noite para o dia. O apito ecoou novamente. Dessa vez, num campo de futebol, era Raí. A torcida vibrava. Entendeu que a distância e o tempo negam o direito de ver os seus familiares todos os dias. O passado pueril trazia a lembrança de seu pai. Agora restava uma cadeira vazia. O filho pródigo, ladrilhador, herança de seu pai, criou a Fundação Gol de Letra, e fez do país ocupado um prolongamento orgânico do seu.

Helanny Torres Ferreira
Brasília, 29 de julho de 2012

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