O apito ecoou em terras paraoras.
Era a hora da passagem do carteiro. Antes da chuva, ele trazia notícias de
longe. Depois da chuva, o cheiro da floresta se confundia com o cheiro da
saudade. Essa paisagem urbana ilustra a história de seu Raimundo, que chegara
em Belém do Pará, cearense, fazedor do seu destino. Vinha do sertão brasileiro,
de Messejana, do árabe masjana, que significa prisão. Veio para ganhar
liberdade Brasil afora. Livre para encontrar a mulher que ladrilhou a história
do seu caminho, Guiomar. Villa Lobos a parte, aos 30 anos, seu Raimundo era íntimo dos
livros. Entre cartas, ele vivia. Trabalhava nos correios, na capital paraense.
O migrante nordestino,
trabalhador, também ladrilhador, no melhor estilo espanhol – metáfora para quem
molda o espaço a seu favor e marca ali sua presença, mudou para a cidade de
Ribeirão Preto. Casado com Guiomar, pai de família, rumou para São Paulo. Pois
como não podia deixar de ser, a geografia mostra o traçado, rota de muitos
nordestinos em busca de oportunidades em terras paulistas. Lá encontrou muitos
amigos da sua terra natal. Naquele tempo, as pessoas não viviam conectadas.
Elas, simplesmente, viviam. Não existia iPad, iPhone, iPod. Existia ai pode,
pode filhos, pode alegria, pode vida. Pela gravidade do amor, foram 11
gestações. É muito amor. Fora do útero materno, sobreviveram seis.
Astros. Paixão. Filosofia. Estava escrito nas estrelas. Sócrates, primogênito de Raimundo e Guiomar. O nome anunciava que a astronomia
da antiguidade iria dar lugar a natureza de esportista. Depois veio Sófocles e
Sóstenes, que se tornaram engenheiros. Raimundo, médico. Raimar, bacharel em
direito e músico nas horas vagas. E Raí, o caçula, craque do futebol. Formavam
um time de vôlei completo, mas o talento estava nos pés. Com uma turma dessas,
as meninices e brincadeiras mirabolantes não ficavam no quintal. Dona Guiomar
ficava louca, como previsto, quando a bola acertava alguma canela descuidada, o
divertimento continuava na rua, num campinho perto dali.
Mãe e pai zelosos. A afeição
abraçava a família e estendia-se aos agregados. Parentes vinham de longe e
moravam ali com eles. O pai Raimundo trabalhava arduamente para dar um tesouro
aos filhos, a educação. O menino Raí nasceu quando o pai já estava melhor de
vida. A timidez do menino era invadida pela extroversão em campo. Os laços de
afeto e amizade com os irmãos perduraram por toda vida. Admirava Sócrates, o
irmão mais velho, que havia saído cedo de casa, para conquistar o Brasil com
sua intimidade com a bola.
O tempo passou. O menino parece que cresceu da noite para o dia. O apito ecoou novamente. Dessa vez,
num campo de futebol, era Raí. A torcida vibrava. Entendeu que a distância e o
tempo negam o direito de ver os seus familiares todos os dias. O passado pueril
trazia a lembrança de seu pai. Agora restava uma cadeira vazia. O filho
pródigo, ladrilhador, herança de seu pai, criou a Fundação Gol de Letra, e fez
do país ocupado um prolongamento orgânico do seu.
Helanny Torres Ferreira
Brasília, 29 de julho de 2012


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