Quando eu era criança eu gostava de muitas coisas de adulto. Gostava da independência, da liberdade, e até mesmo de poder falar sem parecer mal criação. Via-os e admirava-os. Sempre pareciam tão firmes e seguros de si. Não os via chorar. Ao contrário, eles me viam e diziam: ''É ótimo ser criança, pois os pequeninos não precisam se preocupar com as contas para pagar no fim do mês, as decepções, as dívidas, os conflitos amorosos. Os pequenos amam mesmo aqueles que não os amam. Eles percebem a diferença entre um sorriso sincero e um presente dado só para agradar, mas gostam mesmo quando ganham um bombom, seja do padrasto ou da coleguinha. Um doce sempre adoça quem acabou de ganhar um sermão, ops, uma palavra sábia da mamãe. As crianças se derretem com um abraço, mesmo depois de terem a sua internet ou o seu videogame suspenso por período indeterminado. E vão se divertir quando seus pais os levam para dar um passeio, comer um lanche gostoso e sentir que são amados. Simples, é tão simples ser criança. Elas é que são felizes''.
Quando eu era criança eu gostava de muitas coisas de criança. Gostava de inventar coisas. Adorava ver aqueles programas infantis em que se criavam coisas com o que se tinha em casa. Adorava copiar poemas. Achava o máximo os poemas do Manuel Bandeira - pensava até que ele tinha sido um dos criadores da bandeira nacional. Por falar nisso, algumas palavras tinham um significado especial para mim. A Lua era a esposa do sol, e as estrelas seus filhos, por exemplo. Gostava quando minha vizinha me deixava pegar goiaba no quintal dela. Não existiam muros entre nossas casas. Gostava de brincar na rua, de peteca (palavra peculiar, em Belém, para bolinha de gude), pira-pega, garrafão, queimada, pião, boca de forno (especialmente quando eu era a mestra). Amava ouvir as histórias que meu pai contava, ele repetia algumas vezes a da Chapeuzinho Vermelho, sempre com um final diferente, com direito a sustinho no final, e inventava muitas outras para mim e para o meu irmão. Gostava de pegar maracujá na horta da minha casa. Detalhe: a horta era só de maracujá mesmo. Também tinham galinhas, pintinhos, jabutis, passarinhos, patinhos. Coisa mais linda. Amava minha gatinha Nala e o cãozinho Pastor Alemão, o nome dele era esse mesmo, enorme ele era. Gostava de acordar em dia de aniversário com parabéns na cama. Gostava também de poder dormir até às 9h da manhã sem peso na consciência. Gostava do Natais, mesmo quando, em alguns anos, não tinha presente de brinquedo, mas sempre tinha a ceia e a família reunida, melhor presente, só a vida mesmo. Amava minha boneca de pano, não porque eu precisasse cuidar dela, mas porque ela encarnava uma personagem, e porque eu conversava com ela, o nome dela era Vovozinha, contudo um dia a Vovozinha foi embora. Desapeguei e doei a minha boneca, minha tia a deu durante uma viagem para Macapá, ela jogou do navio para as crianças que vinham de canoa em busca de alimentos e doações diversas. Por falar nisso, isso era muito comum aqui na Amazônia. Eu mesma, quando fui passar umas férias com a minha família nas margens do Rio Companhia, origem familiar ribeirinha, passeava muito de canoa e até mesmo ganhei alguns brinquedos dessa forma. Como eu era criança achava isso uma diversão, e ainda não entendia nada de políticas sociais ou direitos humanos, mas compreendi o que minha família me ensinou, não importa o que você tenha, sempre divida. Por falar nisso, era tão bom nadar no rio, correnteza forte, pescar (nessa época eu ainda não tinha amigos vegetarianos e nem veganos), plantar, cultivar. Gostava de sentar na ponte de madeira em frente da casa do meu avô e molhar meu pés no rio, quando tinha maré cheia, e ver o céu, os desenhos nas nuvens, o mistério da mansidão. Como se eu mesma já fizesse parte desse mistério antes mesmo de nascer. Uma das coisas com as quais eu mais gostava de brincar era com papel, fazer brinquedos de papel era o máximo para mim. Gostava de brincar de escritório, eu a chefe, e meu irmão, o secretário. Deve ser coisa de irmã mais velha, sei lá, mas ai se alguém mexesse com o meu irmão, ai mexeria comigo. Brincar de jornalista, então!, era fabuloso, imitava as âncoras dos telejornais, mas o conteúdo respectivo é melhor nem comentar. Era muita imaginação. Ah, tantas coisas, tantas amizades que perduram até hoje, e acredito que por toda a vida. Eu não poderia deixar de mencionar que eu atuei como o ''Amarelo do Arco-Íris'' no teatro da escola - até hoje o meu irmão fala zoando que eu era a ''árvore''. Eu nunca precisei superar isso, porque na verdade até hoje eu tenho orgulho de contar sobre essa peça. Também teve uma vez que saímos as ruas para fazer algum protesto, eu nem lembro do que se tratava, eu era muito criança, mas gostei de andar pelas ruas com um monte de gente unida, crianças e professores, por causa de uma causa específica. Eu aprontava, minha mãe que o diga, ainda bem que a sua ternura sempre foi maior que a sua rigidez. Como era bom ser criança, se alguém me falava alguma coisa da qual eu não gostava, eu logo esquecia. Meu pai me levava para ver a Santinha, no Círio de Nazaré, naquela época, confesso, eu não ficava sem um brinquedo de miriti. Hoje, meu pai está mais perto da Nazinha do que eu (nos céus), e eu me desdobro, porque quero participar do sagrado e do profano do mega evento, da festa da nossa padroeira, digo, amo o círio, mas adoro também o auto do círio. Égua! Eu só queria ser feliz mesmo.
Peraí, hoje, jovem, amo quando brinco, especialmente, com os meus sobrinhos. Eles até me ensinam e sabem mais do que eu em se tratando de celular e notebook, foi a minha sobrinha quem me ensinou sobre uma rede social chamada Instagram e um tal de Apps, eu nem sei usar isso, mas minha linda afilhada sabe. E ai de mim se não tiver passeio no Tatoo Park, isso não é mais uma mera propaganda, e para não parecer publicidade gratuita, troco por MC Donald's, mas acho que não funcionou muito. Apesar de vivermos numa década de conexões tecnológicas, temos muitas afinidades, amamos flores, pessoas, picolés, aniversários, piadas, charadas, praia, igrejas, museus, andar de bicicleta, e gostamos de conversar presencialmente, sem o prefixo ''tele'' mesmo. Conversamos com Deus, ai sim, entra o tele de telepatia, mais o perto, de proximidade. E a Gaby me fala: ''Tia, a Sra. conversa com Deus do seu jeito, que eu converso do meu, ok''. E ela me fala isso com aquele jeitinho meigo, para não parecer mal criação. Às vezes eu nem sei quem ensina quem, mas acho que eles ensinam mais a mim do que eu a eles, porque para eles tudo é, incrivelmente, possível e fácil. Outro dia, o Pietro inventou uma cidade com os brinquedos dele, e ele chamou de Cidade do Dragão. O Pietro ama capoeira, a Gaby, natação. A Gaby ama criar, imaginar, o Pietro ama executar, fazer. O Pietro quer aprender a tocar escaleta, e eu também, a Gaby quer aprender a tocar violão. Fazemos algum barulho com esses instrumentos, e ousamos chamar isso de música. É muita ousadia para mim, mas para eles, eles estão apenas se divertindo. Meus sobrinhos gostam das histórias que eu conto, com direito a sustinho e final inesperado, mas feliz. Às vezes são eles que me contam histórias, e eu fico admirada, descobri outro dia, por meio deles, que eu conto repetidas vezes a história de Maria e o Pé de Feijão que leva aos céus (com adaptações), e eu nem me dava conta. Circo, bosque, praça, amamos. Crianças são mesmo atentas a tudo. Quer saber, eu continuo querendo a mesma coisa, comer, rezar, amar, mas eu não poderia terminar com esse final para não parecer clichê, e isso não é mais cult, então só quero dançar, orar, cantar, plantar, pintar, ouvir, conversar, amar, sonhar, viver. No final, trata-se apenas de fazer o que se gosta, de respeitar o que o outro gosta, e principalmente de compartilhar as alegrias com o outro, fazendo-o também feliz, isso sim que é a verdadeira felicidade, fé na cidade, fé nas crianças, fé na vida. Diplomacia invisível. O invisível é o que só pode ser sentido. O despertar para o infinito universal. Hoje me permito, de novo, inventar novos significados para as palavras, e novas estruturas textuais (nada de parágrafos curtos por hora), e olha que nem comecei a falar numa linguagem saramandense, mas fecho com um belo-dia-mente das crianças para todos vocês, jovens e johvens.
Helanny Torres Ferreira
Belém, 12 de outubro de 2013


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