segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Amanhã é o dia mais ocupado da semana

A cansava, mas ouvia com atenção. Anos antes ao lado dele se contentava em respirar fundo e tentar ouvi-lo com desvelo. A graça agora não era a mesma, nem mesmo havia graça, só vontade de permanecer quieta, numa frenética agitação em nunca descansar. Estes momentos de fim de ano eram mesmo reflexivos e insistiam em trazer de volta 7 natais, que haviam sido passados anos antes com aquele, o qual ela atribuiu toda sua afeição.

É mesmo estranho tanto tempo de reclusão. Em um novo trabalho ela conheceu Ana, o trabalho exigia tanto que de vez em quando uma se mudava para casa da outra, nos finais de semana, ela se limitava a ir correr no fim da tarde, ir à missa e depois ir comer sushi. Muitas vezes até mesmo acompanhada da mãe ou do irmão de Ana. Enquanto isso Ana não perdia nenhuma das festas mais 'quentes da cidade. Ana chegava e a acordava ainda as 5h da matina para lhe contar os causos amorosos da noite. Histórias, digamos assim, apimentadas.

Mas aquilo não mais provocava o mínimo interesse, às vezes risos e surpresa. Ela apenas gostaria de um abraço apertado, mas se esforçava para manter uma distância razoável, e ao passo que mais se dedicava mais suas tentativas eram escassas. Para ela, não foi preciso ir longe e nem mesmo atravessar o atlântico para descobrir a esperança e a paixão que dá o tom a vida, a qual tinha sido despertada em uma época tão cheia de prudência e devoção.

Ela espreitava aquele menino timidamente e não mais importava se ele podia ou não corresponder, porque o amor que sentia superava qualquer forma de egoísmo, mas comungar com ele e ao lado dele momentos de cumplicidade se convertia na mais perfeita sintonia. Pois é prazeroso encontrar um alguém que compartilha dos mesmos sonhos e que fala a mesma língua, olhares que se entendem sem verbos, e 'aquele olhar ficou imortalizado nas lembranças dela. Apenas o silêncio intrínseco parecia confirmar um velho ditado "amanhã é o dia mais ocupado da semana".

Por Helanny Torres - 28/12/2009



Vamos Fugir - Composição Gilberto Gil & Liminha

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fé cega, faca amolada


"Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no outro". Mário Quintana

*Mesmo sem saber que mora... Um mapa em prosa, geografia sem a estática da escrita, um tilintar de melodias que mudam de direção porque não há direção. Nada é tão perto quanto se imagina e nem tão longe quanto se supõe.
Estar insuportavelmente atenta neste momento é mais que admirar um vocabulário fresco e criativo, mas sentir esta, aquela conexão.

Sincronicidades sem fim, descobertas por 'coincidências significativas. E, Nossa Senhora, como são espontâneas! Talvez daí venha essa subjetividade toda de morar um no outro. Neste momento posso dizer que a casa está doce e com a ternura de uma criança.

*Por Helanny Torres - 10 de dezembro de 2009.


"O brilho cego de paixão e fé, faca amolada".
Fé cega, faca amolada. Composição: Milton Nascimento

http://www.youtube.com/watch?v=da18kGGkYjw&feature=player_embedded