domingo, 10 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

O dia de hoje: o presente


"Uma outra linguagem, uma geografia espiritual secreta, crescia dentro de mim, tomando conta dos meus sonhos noturnos, bem como de meus devaneios diurnos". Truman Capote


O prazer dos sentidos, a dança, a música, o êxtase de estar em singular melodia. O olhar devorador que incendeia num arrebatamento divino, porque não há nesse momento nenhuma regra que insista em dizer que não deve, não pode, não é moral.

É desafiador e tentador, mas quando conceitos e preconceitos são despidos, convenções que regulam hipocrisias sociais são reveladas. E nesse sentido, não há nada que me faça importar com o julgamento alheio, nem sequer lamento por isso. Não é necessário usar o poder da caneta para ferir desnecessariamente outra pessoa, mas é possível usar o poder das palavras para desvendar aquilo que pertuba pensamentos. Se precisa mesmo saber, pergunte.

Um grupo de turistas estava no topo de El Peñol, um gigantesco monólito de arenito que se ergue abruptamente 200m acima dos campos de Antioquia, na Colômbia. Após subir os 649 degraus até o topo encontraram com um amistoso guarda, o qual contou que já estava naquele emprego havia mais de vinte anos. Assim uma das pessoas do grupo perguntou:

- Alguém já caiu?

- Sim, uns trinta.

- E essas pessoas tiveram a intenção de se jogar ou foi um acidente?

- Não sei, nunca pude fazer a pergunta.

Pode-se enxergar milhas em todas as direções. No entanto às vezes, o que é mais perigoso é o mais excitante. Neste caso, olhar da margem, da extremidade do topo parece mais divertido, e mais arriscado também.

A lição aprendida é viver em paz consigo mesmo. Cada condição que a vida nos impõe é uma oportunidade de crescimento. Há riscos, mas também há escolhas. Tranquilidade para seguir em frente sem as amarras do que passou. Sentir-se livre para reinventar outros caminhos. Depois de um 2009 de incontáveis mudanças e desafios, e com um sentimento de sair mais fortalecida a cada fúria do implacável destino, que venha um 2010 de muitas esperanças e alegrias, e não há nenhuma dúvida sobre isso.

Por Helanny Torres - 01/01/10

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Amanhã é o dia mais ocupado da semana

A cansava, mas ouvia com atenção. Anos antes ao lado dele se contentava em respirar fundo e tentar ouvi-lo com desvelo. A graça agora não era a mesma, nem mesmo havia graça, só vontade de permanecer quieta, numa frenética agitação em nunca descansar. Estes momentos de fim de ano eram mesmo reflexivos e insistiam em trazer de volta 7 natais, que haviam sido passados anos antes com aquele, o qual ela atribuiu toda sua afeição.

É mesmo estranho tanto tempo de reclusão. Em um novo trabalho ela conheceu Ana, o trabalho exigia tanto que de vez em quando uma se mudava para casa da outra, nos finais de semana, ela se limitava a ir correr no fim da tarde, ir à missa e depois ir comer sushi. Muitas vezes até mesmo acompanhada da mãe ou do irmão de Ana. Enquanto isso Ana não perdia nenhuma das festas mais 'quentes da cidade. Ana chegava e a acordava ainda as 5h da matina para lhe contar os causos amorosos da noite. Histórias, digamos assim, apimentadas.

Mas aquilo não mais provocava o mínimo interesse, às vezes risos e surpresa. Ela apenas gostaria de um abraço apertado, mas se esforçava para manter uma distância razoável, e ao passo que mais se dedicava mais suas tentativas eram escassas. Para ela, não foi preciso ir longe e nem mesmo atravessar o atlântico para descobrir a esperança e a paixão que dá o tom a vida, a qual tinha sido despertada em uma época tão cheia de prudência e devoção.

Ela espreitava aquele menino timidamente e não mais importava se ele podia ou não corresponder, porque o amor que sentia superava qualquer forma de egoísmo, mas comungar com ele e ao lado dele momentos de cumplicidade se convertia na mais perfeita sintonia. Pois é prazeroso encontrar um alguém que compartilha dos mesmos sonhos e que fala a mesma língua, olhares que se entendem sem verbos, e 'aquele olhar ficou imortalizado nas lembranças dela. Apenas o silêncio intrínseco parecia confirmar um velho ditado "amanhã é o dia mais ocupado da semana".

Por Helanny Torres - 28/12/2009



Vamos Fugir - Composição Gilberto Gil & Liminha

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fé cega, faca amolada


"Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no outro". Mário Quintana

*Mesmo sem saber que mora... Um mapa em prosa, geografia sem a estática da escrita, um tilintar de melodias que mudam de direção porque não há direção. Nada é tão perto quanto se imagina e nem tão longe quanto se supõe.
Estar insuportavelmente atenta neste momento é mais que admirar um vocabulário fresco e criativo, mas sentir esta, aquela conexão.

Sincronicidades sem fim, descobertas por 'coincidências significativas. E, Nossa Senhora, como são espontâneas! Talvez daí venha essa subjetividade toda de morar um no outro. Neste momento posso dizer que a casa está doce e com a ternura de uma criança.

*Por Helanny Torres - 10 de dezembro de 2009.


"O brilho cego de paixão e fé, faca amolada".
Fé cega, faca amolada. Composição: Milton Nascimento

http://www.youtube.com/watch?v=da18kGGkYjw&feature=player_embedded

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Menina Morta

“Com esforço, ao fim de várias tentativas(...) o carro pode entrar na balsa. Dentro em pouco a enorme barcaça, ainda maior só com aquele veículo negro deslizava pelas águas sussurrantes, que pareciam rir e conversar em surdina. Talvez as ondas rápidas, amarelas, contassem umas às outras a história muito curta e risonha da menina vestida de cetim brocado, com a pequena coroa de rosas que era prisioneira entre paredes de madeira rude, escondida pela seda branca, sobre ela esticada.”

Cornélio Penna - A Menina Morta

Uma das prosas mais poéticas da tradição brasileira - Um romance intimista... e surpreendente.

*Até hoje nem tudo é o que parece ser (frase tão clichê). Traços de caráter existencial e de inversão de significados marcam este momento de solitude do meu "infinito particular", até lembrei da música da Marisa Monte... (helanny)

http://www.youtube.com/watch?v=DnjePtWoxuM

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda