domingo, 5 de dezembro de 2010

Os bestializados da República

Bobos da Corte ou da República?

A Proclamação da República não foi um movimento popular. No âmbito político, os militares foram as lideranças que iniciaram a transição para o regime republicano. Eles foram apoiados pelos proprietários de terras, os quais estavam insatisfeitos com a Monarquia. O povo não participou dessa revolução, a qual mudaria para sempre o destino do país. Para compreender o que representou para a população carioca, e também para a brasileira, o dia 15 de novembro de 1889, é preciso conhecer os antecedentes históricos da Proclamação, o contexto político e econômico no qual estava inserida; dessa forma será possível identificar e confirmar o motivo do fenômeno republicano ter provocado espanto, perplexidade, curiosidade e até mesmo indiferença nas pessoas.

O século XIX foi caracterizado pela escravidão, herança de um passado colonial não muito distante. A Monarquia brasileira era sustentada pela economia baseada no trabalho escravo. Em 1888, ao assinar a abolição da escravidão, a princesa Isabel, regente imperial, esteve disposta a arriscar a perda do trono, fato esse que a tornou conhecida como a princesa redentora. O seu marido, o Conde D’Eu, ainda lhe advertiu que se libertasse os escravos, estaria promovendo a própria queda. Desse forma, os proprietários de terra ficaram indignados com a decisão da princesa, pois eles precisavam dos escravos para continuaram a lucrar e a aumentar suas riquezas. Insatisfeitos, conspiraram um golpe, apoiando os militares para a derrubada da Monarquia.

A abolição da escravidão era, por si só, objeto do repúdio dos fazendeiros e dos conservadores. O pior para eles foi que o regime escravagista foi abolido por uma mulher. Desse modo, o temor maior era ser governado por uma mulher, pois, naquele tempo, acreditava-se que a função da mulher era voltada, exclusivamente, para o lar. Pensava-se que se a princesa Isabel viesse a se tornar monarca, ela seria influenciada e comandada pelo marido e também pela religião, pois ela seguia o ultramontanismo, o catolicismo praticado, originariamente, no vaticano. Nesse contexto, como Dom Pedro II estava muito doente e por temerem sua possível morte, os militares agilizaram a tomada do poder.

A Proclamação da República foi um fenômeno isolado do povo. Seis dias antes, a família imperial promovia a última festa antes de perder o reinado, o Baile da Ilha Fiscal. Sem suspeitar de uma conspiração, os representantes da Monarquia divertiam-se. Enquanto isso, Benjamin Constant reunia os chefes republicanos e a milícia no Clube Militar. Nesse âmbito, compreende-se que a Proclamação foi um acontecimento motivado por interesses pessoais e por insatisfação com a Monarquia, restrito a um determinado número de pessoas que iriam obter vantagens com a República, e não por princípios ideológicos.

O sistema internacional das Américas era composto por países republicanos em 1880, somente o Brasil possuía uma dinastia. Havia muitas pressões externas a fim de que o Estado brasileiro fosse transformado em uma República, contudo a maioria da população estava acomodada e acostumada com a Monarquia. Com exceção de alguns intelectuais, jornalistas, estudantes e políticos, as convicções ideológicas republicanas não faziam parte do cotidiano da sociedade. Por isso, esta assistiu a tudo perplexa, com curiosidade para saber o que havia e o que iria mudar, pois o povo foi excluído de participar da Proclamação, apenas havia sido comunicado.

Os brasileiros, à época da Proclamação, não participaram da transição, visto que o que havia sido instaurado não foi erguido com a bandeira da democracia. A curiosidade era motivada pela mudança política, a indiferença era que não havia grandes propostas para mudar a economia, haja vista que não existia um discurso para o combate às desigualdades sociais, portanto, a reação do povo foi de espanto, os brasileiros estavam perplexos com a derrubada do império, porque, inclusive, não conheciam outra forma de governo.

Helanny Torres Ferreira

Referências
  • Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Prêmio melhor livro em ciências sociais de 1987 da ANPOCS. José Murilo de Carvalho.
  • Esaú e Jacó (1904) . Machado de Assis.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Para redescobrir o tempo


Depois de algum tempo sem publicar texto de minha autoria, irei postar por aqui algumas das minhas redações de português e inglês (que escrevi nos últimos meses), são dissertações e interpretações de textos acadêmicos de História do Brasil, História Mundial, literatura (muito sobre Machado de Assis), Política Internacional e temas variados em geral.

Aviso de antemão que a linguagem é apropriada para o impresso e não para internet, mas resolvi que de alguma forma preciso dar uma movimentada por aqui. rs. Tempo para redescobrir momentos esquecidos, enjoy!

sábado, 13 de novembro de 2010

Ai Que Saudade D'Ocê

Não se admire se um dia
Um beija-flor invadir
A porta da tua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo
Ai que saudade de ocê

Se um dia ocê se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com frases dizendo assim
Faz tempo que eu não te vejo
Quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijo
Ai que saudade sem fim

E se quiser recordar
Aquele nosso namoro
Quando eu ia viajar
Você caía no choro
Eu chorando pela estrada
Mas o que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina
Eu gosto mesmo é de ocê

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A mulher e a casa


Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas
,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro
, de visitá-la.
João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sob Medida

Di Cavalcanti

Se você crê em Deus
Erga as mão para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou tua alma gêmea
Sou tua fêmea
Teu par, sua irmã
Eu sou teu incesto

Sou igual a você
Eu nasci pra você

Eu não presto
Eu não presto

Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da tua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus

Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus
Uma prece
E agradeça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece

Composição: Chico Buarque de Hollanda





terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sentimento do mundo

A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.



A noite dissolve os homens (Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade.
*Este poema foi dedicado ao pintor Cândido Portinari.

sábado, 25 de setembro de 2010

L'Assedio

Um filme de Bertolucci. O início instiga revolta e admiração, o cenário parte da África e é direcionado para Europa. A trama envolve perseguição política, injustiça social, a beleza exótica das manifestações culturais africanas, amor e muito mais.
O filme é lento, mas apaixonante. Revela sutilmente a conquista de um amor. A música é excitante, a fotografia marcante, mas não é possível definir a cidade européia onde se passa a película, pois a intenção de Bertolucci é exatamente essa, a filmagem foi rodada em vários países, quem já andou pelo velho mundo, vai facilmente identificar isso. A crítica pode dizer o que quiser dessa obra do grande mestre, mas a minha opinião é que esse é um filme apaixonante, ideal para se ver no cinema, sem cair no circuito problemático alternativo. Um filme de chorar.