quinta-feira, 31 de março de 2011

Um estadista sensitivo - Ítalo Moriconi* (sobre Joaquim Nabuco)

O trauma da escravidão é a permanência de sentimentos afetivos, que impedem a institucionalização de uma cultura crítica no Brasil. Esses sentimentos são expressos, por meio de valores socioculturais, para além das limitações econômicas brasileiras. Luiz Costa Lima acredita que não se trata, apenas, de superar o eurocentrismo cultural, mas sim de enfrentar os traumas e os bloqueios enraizados na tradição brasileira , motivo pelo qual afirma a inexistência de pensamento crítico no Brasil.


Ítalo Moriconi acredita que há pensamento crítico no Brasil, mas que este não pauta o funcionamento das instituições públicas do país. Ambos, Costa Lima e Moriconi, concordam que o país precisa enfrentar o passado nacional, para transformá-lo em tradição válida; logo, o Brasil deve superar a saudade do escravo e ultrapassar os limites que compõem o sistema ideológico e valorativo da classe senhorial brasileira.

Helanny Torres



As ideias fora do lugar - Roberto Schwarz*

Roberto Schwarz contesta a autorreferência europeia como modelo de civilização para o Brasil. Nesse contexto, a europa é considerada pela elite intelectual e social, no século XIX, o centro difusor da cultura ocidental. O intelectual cita o ideário liberal para defender a tese de que o que é adequado para a europa não o é para o Brasil; pois o liberalismo encontra, no Brasil, uma sociedade paternalista e escravocrata, e diferente do sistema político e econômico europeu.


Sílvio Romero afirma que o Brasil não deve copiar o ideário europeu. Nesse âmbito, o Brasil possui peculiaridades distintas da Europa, e a literatura deve ser o meio de expressão dessas particularidades regionais. Novas ideias, como o positivismo de Comte e o evolucionismo de Darwin, influenciam o crítico; e dessa forma, a configuração de uma brasilidade deveria ser feita para além dos problemas sociais, mas também, deveria abranger uma identidade original, própria às contradições e às complexidades do processo de modernização do Brasil.

Helanny Torres

*As ideias fora do lugar - Roberto Schwarz

João Cabral de Melo Neto - Camarada cacto*



João Cabral de Melo Neto é o principal representante da geração de 1945. A principal característica nos textos desse poeta é o debate entre o ser humano e ele mesmo. A ausência de algo que completa o ser humano é corporificado por meio de substantivos que marcam seus textos poéticos.

Dessa forma, a poesia serve para completar essa angústia, ou até mesmo para enfrentá-la. O ''poeta cerebral'' diferencia-se daqueles das geração anteriores, porque, em seus textos, somente, há espaço para o essencial, sua reflexão estética consiste em despertar no leitor o pensamento crítico. A denúncia social é feita por intermédio da riqueza que falta ao Brasil, e não pela descrição da pobreza, aspecto dos modernistas de 1922 e da geração de 1930.

Helanny Torres




Retrato à sua maneira

(Poema de Vinícius de Moraes para João Cabral de Melo Neto)


Magro entre pedras

Calcárias possível

Pergaminho para

A anotação gráfica

O grafito Grave

Nariz poema o

Fêmur fraterno

Radiografável a

Olho nu Árido

Como o deserto

E além Tu

Irmão totem aedo

Exato e provável

No friso do tempo

Adiante Ave

Camarada diamante!


*Resposta a Vinícius de Moraes

Camarada diamante!

(João Cabral de Melo Neto)



Não sou um diamante nato

nem consegui cristalizá-lo:

se ele te surge no que faço

será um diamante opaco

de quem por incapaz do vago

quer de toda forma evitá-lo,

senão com o melhor, o claro,

do diamante, com o impacto:

com a pedra, a aresta, com o aço

do diamante industrial, barato,

que incapaz de ser cristal raro

vale pelo que tem de cacto.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Diplomacia em alto mar

Vasco Leitão da Cunha

Durante oito anos não houve concurso, de maneira que eu via as pessoas serem nomeadas e fiquei achando que não teria ocasião de entrar para o Itamaray, porque não me considerava suficientemente apadrinhado. Torcia pela abertura do concurso, achava que era a maneira séria e correta de entrar. Foi o Mangabeira quem reabriu os concursos, que passaram a se realizar todo mês de junho, durante quatro anos. Minha banca, em 1927, foi presidida [...]. Éramos 20 e só dois fomos aprovados [...]. Comecei no Itamaray como terceiro-oficial da Secretaria de Estado, ganhando 450 mil réis. No escritório do meu avô eu ganhava o dobro, um conto de réis. [...]

A diplomacia estava à espreita, estava me esperando, acho que desde sempre. [...]

Diplomacia em alto mar: depoimento ao CPDOC. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora FGV; Brasília: FUNAG, 2003, p.9-10

domingo, 5 de dezembro de 2010

Os bestializados da República

Bobos da Corte ou da República?

A Proclamação da República não foi um movimento popular. No âmbito político, os militares foram as lideranças que iniciaram a transição para o regime republicano. Eles foram apoiados pelos proprietários de terras, os quais estavam insatisfeitos com a Monarquia. O povo não participou dessa revolução, a qual mudaria para sempre o destino do país. Para compreender o que representou para a população carioca, e também para a brasileira, o dia 15 de novembro de 1889, é preciso conhecer os antecedentes históricos da Proclamação, o contexto político e econômico no qual estava inserida; dessa forma será possível identificar e confirmar o motivo do fenômeno republicano ter provocado espanto, perplexidade, curiosidade e até mesmo indiferença nas pessoas.

O século XIX foi caracterizado pela escravidão, herança de um passado colonial não muito distante. A Monarquia brasileira era sustentada pela economia baseada no trabalho escravo. Em 1888, ao assinar a abolição da escravidão, a princesa Isabel, regente imperial, esteve disposta a arriscar a perda do trono, fato esse que a tornou conhecida como a princesa redentora. O seu marido, o Conde D’Eu, ainda lhe advertiu que se libertasse os escravos, estaria promovendo a própria queda. Desse forma, os proprietários de terra ficaram indignados com a decisão da princesa, pois eles precisavam dos escravos para continuaram a lucrar e a aumentar suas riquezas. Insatisfeitos, conspiraram um golpe, apoiando os militares para a derrubada da Monarquia.

A abolição da escravidão era, por si só, objeto do repúdio dos fazendeiros e dos conservadores. O pior para eles foi que o regime escravagista foi abolido por uma mulher. Desse modo, o temor maior era ser governado por uma mulher, pois, naquele tempo, acreditava-se que a função da mulher era voltada, exclusivamente, para o lar. Pensava-se que se a princesa Isabel viesse a se tornar monarca, ela seria influenciada e comandada pelo marido e também pela religião, pois ela seguia o ultramontanismo, o catolicismo praticado, originariamente, no vaticano. Nesse contexto, como Dom Pedro II estava muito doente e por temerem sua possível morte, os militares agilizaram a tomada do poder.

A Proclamação da República foi um fenômeno isolado do povo. Seis dias antes, a família imperial promovia a última festa antes de perder o reinado, o Baile da Ilha Fiscal. Sem suspeitar de uma conspiração, os representantes da Monarquia divertiam-se. Enquanto isso, Benjamin Constant reunia os chefes republicanos e a milícia no Clube Militar. Nesse âmbito, compreende-se que a Proclamação foi um acontecimento motivado por interesses pessoais e por insatisfação com a Monarquia, restrito a um determinado número de pessoas que iriam obter vantagens com a República, e não por princípios ideológicos.

O sistema internacional das Américas era composto por países republicanos em 1880, somente o Brasil possuía uma dinastia. Havia muitas pressões externas a fim de que o Estado brasileiro fosse transformado em uma República, contudo a maioria da população estava acomodada e acostumada com a Monarquia. Com exceção de alguns intelectuais, jornalistas, estudantes e políticos, as convicções ideológicas republicanas não faziam parte do cotidiano da sociedade. Por isso, esta assistiu a tudo perplexa, com curiosidade para saber o que havia e o que iria mudar, pois o povo foi excluído de participar da Proclamação, apenas havia sido comunicado.

Os brasileiros, à época da Proclamação, não participaram da transição, visto que o que havia sido instaurado não foi erguido com a bandeira da democracia. A curiosidade era motivada pela mudança política, a indiferença era que não havia grandes propostas para mudar a economia, haja vista que não existia um discurso para o combate às desigualdades sociais, portanto, a reação do povo foi de espanto, os brasileiros estavam perplexos com a derrubada do império, porque, inclusive, não conheciam outra forma de governo.

Helanny Torres Ferreira

Referências
  • Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Prêmio melhor livro em ciências sociais de 1987 da ANPOCS. José Murilo de Carvalho.
  • Esaú e Jacó (1904) . Machado de Assis.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Para redescobrir o tempo


Depois de algum tempo sem publicar texto de minha autoria, irei postar por aqui algumas das minhas redações de português e inglês (que escrevi nos últimos meses), são dissertações e interpretações de textos acadêmicos de História do Brasil, História Mundial, literatura (muito sobre Machado de Assis), Política Internacional e temas variados em geral.

Aviso de antemão que a linguagem é apropriada para o impresso e não para internet, mas resolvi que de alguma forma preciso dar uma movimentada por aqui. rs. Tempo para redescobrir momentos esquecidos, enjoy!

sábado, 13 de novembro de 2010

Ai Que Saudade D'Ocê

Não se admire se um dia
Um beija-flor invadir
A porta da tua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo
Ai que saudade de ocê

Se um dia ocê se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com frases dizendo assim
Faz tempo que eu não te vejo
Quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijo
Ai que saudade sem fim

E se quiser recordar
Aquele nosso namoro
Quando eu ia viajar
Você caía no choro
Eu chorando pela estrada
Mas o que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina
Eu gosto mesmo é de ocê