segunda-feira, 25 de abril de 2011

Poesia canônica

       O panteão poético brasileiro tem alta voltagem intelectual. Nossa canção popular inclui grandes nomes, e por que não chamá-los de ''demiurgos'' da música, como Lupicínio Rodrigues, Cartola e Noel Rosa. Na educação à brasileira, as fronteiras entre o popular e o erudito foram, com acuidade, liberadas pelas sofisticadas letras da MPB. O linde colossal é a penumbra obscurecida, quase propositalmente, pelo incêndiário sucesso de Caetano Veloso e Chico Buarque. Dessa forma, a Revolução Pop foi o momento em que a poesia foi sequestrada pela música.

        Da mesma forma, pode-se dizer, que o modernismo sagrou a música de Villa-Lobos, Camargo Guanieri e Francisco Mignone, e a pintura de Tarsila do Amaral, Di Calvancanti, Portinari e do paraense Ismael Nery. Em 1922, além do modernismo no Brasil, eclodiram as vanguardas hispânicas, o creacionismo chileno, o ultraísmo e o martinfierrismo argentinos, e o estridentismo mexicano. Tudo isso, para ir em busca de si mesmo.

       A redescoberta do real brasileiro seja por sua música, pintura, literatura é mais que arte, transcende do todo brasiliano para o universal. Suas peculiaridades expandem os sentidos e os cânones do pensamento, pois a poesia literária complexa é poesia canônica. 

       Ao ler as escolhas de Ítalo Moriconi sobre os grandes livros que compõem o panteão poético literário, imaginei seu trabalho árduo em ter de selecionar entre tantas e extraordinárias obras brasílicas, ele mesmo diz que teve de deixar muitas obras das quais gostava muito, para então poder selecionar ''as mais das mais''; por exemplo, eu não escondo a minha predileção, amor e delírios por João Cabral  de Melo Neto. Eis os grandes livros da alta poesia (por Moriconi):

1. A Rosa do Povo - Drummond - 1945

2. Psicologia da Composição e Antiode - João Cabral  de Melo Neto - 1947

3. Claro Enigma - Drummond - 1951

4. Invenção de Orfeu - Jorge de Lima - 1952

5. Romanceiro da Inconfidência - Cecília Meireles - 1953

6. Fazendeiro do Ar - Drummond - 1954

7. Contemplação de Ouro Preto - Murilo Mendes - 1954

8. Morte e Vida Severina e Uma Faca Só Lâmica - João Cabral  de Melo Neto - 1956

9. Siciliana e Tempo Espanho - Murilo Mendes - 1959

10. Terceira Feira (reunindo Quaderna, Dois Parlamentos e Serial) - João Cabral  de Melo Neto - 1961

11. Lição das Coisas - Drummond - 1962

12. A Educação Pela Pedra - João Cabral  de Melo Neto - 1966

13. Convergência - Murilo Mendes - 1966

domingo, 3 de abril de 2011

About the nuclear threat

Helanny Torres


        The world faces a critical menace from the nuclear weapons at the present time. Nuclear powers can figth this threat. The ideal way to do this is eliminating nuclear arsenals. A step toward this is reducing nuclear proliferation; however, there is the fear of terrorists producing these weapons. This tendency has been aggravated by regional conflicts, provoking the usual malaise in the international community. There are extensive efforts to avoid the nuclear risk. A good example is the South Africa, which voluntarily disarmed in the 1990s.

       The results of these efforts have helped to combat widespread nuclear proliferation. Another achievement is the Nuclear Nonproliferation Treaty (NPT). This Agreement is one successful international accords in history. Its members are more than 180 countries; this treaty is essential for efforts to nonproliferation. The NPT endorsed a commission to supervise the countries that signed this accord. This inspection occurs every five years. It is therefore of utmost importance that this surveillance occurs, but still there are countries that have not signed the NPT, the are: Iran, India, Pakistan and more recently North Korea, which is no longer a member of NPT.

       Many countries are reinforcing a culture of nonproliferation. Nuclear powers such as the U.S. and Russia are the leaders which have renewed their global. They are fighting the nuclear threat with measures that aim to limit the use of weapons. Thus, they signed two important agreement in 1972, they are: the Strategic Arms Limitation Talks (SALT) and the Anti-Ballistic Missile Treaty (ABM). In 2010, they signed the New Strategic Arms Reduction Treaty (New START). These initiatives are essential for nuclear disarmament. Other initiatives are being taken by emerging powers. Brazil, for example, only uses nuclear energy for peaceful purposes.

       Global consciousness is an effective way to win the nuclear threat; at a certain point, it is necessary to make the reduction of nuclear warheads in public. The unfolding of these actions is freeing humanity. Social peace depends on the engagement of all countries. The nuclear danger concerns millions of peoples and would cause millions of casualties. Thus, confidence-building is primordial to save the world from this dreadful threat. The future of humanity will only be guaranteed with no use of nuclear weapons.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Um estadista sensitivo - Ítalo Moriconi* (sobre Joaquim Nabuco)

O trauma da escravidão é a permanência de sentimentos afetivos, que impedem a institucionalização de uma cultura crítica no Brasil. Esses sentimentos são expressos, por meio de valores socioculturais, para além das limitações econômicas brasileiras. Luiz Costa Lima acredita que não se trata, apenas, de superar o eurocentrismo cultural, mas sim de enfrentar os traumas e os bloqueios enraizados na tradição brasileira , motivo pelo qual afirma a inexistência de pensamento crítico no Brasil.


Ítalo Moriconi acredita que há pensamento crítico no Brasil, mas que este não pauta o funcionamento das instituições públicas do país. Ambos, Costa Lima e Moriconi, concordam que o país precisa enfrentar o passado nacional, para transformá-lo em tradição válida; logo, o Brasil deve superar a saudade do escravo e ultrapassar os limites que compõem o sistema ideológico e valorativo da classe senhorial brasileira.

Helanny Torres



As ideias fora do lugar - Roberto Schwarz*

Roberto Schwarz contesta a autorreferência europeia como modelo de civilização para o Brasil. Nesse contexto, a europa é considerada pela elite intelectual e social, no século XIX, o centro difusor da cultura ocidental. O intelectual cita o ideário liberal para defender a tese de que o que é adequado para a europa não o é para o Brasil; pois o liberalismo encontra, no Brasil, uma sociedade paternalista e escravocrata, e diferente do sistema político e econômico europeu.


Sílvio Romero afirma que o Brasil não deve copiar o ideário europeu. Nesse âmbito, o Brasil possui peculiaridades distintas da Europa, e a literatura deve ser o meio de expressão dessas particularidades regionais. Novas ideias, como o positivismo de Comte e o evolucionismo de Darwin, influenciam o crítico; e dessa forma, a configuração de uma brasilidade deveria ser feita para além dos problemas sociais, mas também, deveria abranger uma identidade original, própria às contradições e às complexidades do processo de modernização do Brasil.

Helanny Torres

*As ideias fora do lugar - Roberto Schwarz

João Cabral de Melo Neto - Camarada cacto*



João Cabral de Melo Neto é o principal representante da geração de 1945. A principal característica nos textos desse poeta é o debate entre o ser humano e ele mesmo. A ausência de algo que completa o ser humano é corporificado por meio de substantivos que marcam seus textos poéticos.

Dessa forma, a poesia serve para completar essa angústia, ou até mesmo para enfrentá-la. O ''poeta cerebral'' diferencia-se daqueles das geração anteriores, porque, em seus textos, somente, há espaço para o essencial, sua reflexão estética consiste em despertar no leitor o pensamento crítico. A denúncia social é feita por intermédio da riqueza que falta ao Brasil, e não pela descrição da pobreza, aspecto dos modernistas de 1922 e da geração de 1930.

Helanny Torres




Retrato à sua maneira

(Poema de Vinícius de Moraes para João Cabral de Melo Neto)


Magro entre pedras

Calcárias possível

Pergaminho para

A anotação gráfica

O grafito Grave

Nariz poema o

Fêmur fraterno

Radiografável a

Olho nu Árido

Como o deserto

E além Tu

Irmão totem aedo

Exato e provável

No friso do tempo

Adiante Ave

Camarada diamante!


*Resposta a Vinícius de Moraes

Camarada diamante!

(João Cabral de Melo Neto)



Não sou um diamante nato

nem consegui cristalizá-lo:

se ele te surge no que faço

será um diamante opaco

de quem por incapaz do vago

quer de toda forma evitá-lo,

senão com o melhor, o claro,

do diamante, com o impacto:

com a pedra, a aresta, com o aço

do diamante industrial, barato,

que incapaz de ser cristal raro

vale pelo que tem de cacto.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Diplomacia em alto mar

Vasco Leitão da Cunha

Durante oito anos não houve concurso, de maneira que eu via as pessoas serem nomeadas e fiquei achando que não teria ocasião de entrar para o Itamaray, porque não me considerava suficientemente apadrinhado. Torcia pela abertura do concurso, achava que era a maneira séria e correta de entrar. Foi o Mangabeira quem reabriu os concursos, que passaram a se realizar todo mês de junho, durante quatro anos. Minha banca, em 1927, foi presidida [...]. Éramos 20 e só dois fomos aprovados [...]. Comecei no Itamaray como terceiro-oficial da Secretaria de Estado, ganhando 450 mil réis. No escritório do meu avô eu ganhava o dobro, um conto de réis. [...]

A diplomacia estava à espreita, estava me esperando, acho que desde sempre. [...]

Diplomacia em alto mar: depoimento ao CPDOC. 2 ed. Rio de Janeiro, Editora FGV; Brasília: FUNAG, 2003, p.9-10

domingo, 5 de dezembro de 2010

Os bestializados da República

Bobos da Corte ou da República?

A Proclamação da República não foi um movimento popular. No âmbito político, os militares foram as lideranças que iniciaram a transição para o regime republicano. Eles foram apoiados pelos proprietários de terras, os quais estavam insatisfeitos com a Monarquia. O povo não participou dessa revolução, a qual mudaria para sempre o destino do país. Para compreender o que representou para a população carioca, e também para a brasileira, o dia 15 de novembro de 1889, é preciso conhecer os antecedentes históricos da Proclamação, o contexto político e econômico no qual estava inserida; dessa forma será possível identificar e confirmar o motivo do fenômeno republicano ter provocado espanto, perplexidade, curiosidade e até mesmo indiferença nas pessoas.

O século XIX foi caracterizado pela escravidão, herança de um passado colonial não muito distante. A Monarquia brasileira era sustentada pela economia baseada no trabalho escravo. Em 1888, ao assinar a abolição da escravidão, a princesa Isabel, regente imperial, esteve disposta a arriscar a perda do trono, fato esse que a tornou conhecida como a princesa redentora. O seu marido, o Conde D’Eu, ainda lhe advertiu que se libertasse os escravos, estaria promovendo a própria queda. Desse forma, os proprietários de terra ficaram indignados com a decisão da princesa, pois eles precisavam dos escravos para continuaram a lucrar e a aumentar suas riquezas. Insatisfeitos, conspiraram um golpe, apoiando os militares para a derrubada da Monarquia.

A abolição da escravidão era, por si só, objeto do repúdio dos fazendeiros e dos conservadores. O pior para eles foi que o regime escravagista foi abolido por uma mulher. Desse modo, o temor maior era ser governado por uma mulher, pois, naquele tempo, acreditava-se que a função da mulher era voltada, exclusivamente, para o lar. Pensava-se que se a princesa Isabel viesse a se tornar monarca, ela seria influenciada e comandada pelo marido e também pela religião, pois ela seguia o ultramontanismo, o catolicismo praticado, originariamente, no vaticano. Nesse contexto, como Dom Pedro II estava muito doente e por temerem sua possível morte, os militares agilizaram a tomada do poder.

A Proclamação da República foi um fenômeno isolado do povo. Seis dias antes, a família imperial promovia a última festa antes de perder o reinado, o Baile da Ilha Fiscal. Sem suspeitar de uma conspiração, os representantes da Monarquia divertiam-se. Enquanto isso, Benjamin Constant reunia os chefes republicanos e a milícia no Clube Militar. Nesse âmbito, compreende-se que a Proclamação foi um acontecimento motivado por interesses pessoais e por insatisfação com a Monarquia, restrito a um determinado número de pessoas que iriam obter vantagens com a República, e não por princípios ideológicos.

O sistema internacional das Américas era composto por países republicanos em 1880, somente o Brasil possuía uma dinastia. Havia muitas pressões externas a fim de que o Estado brasileiro fosse transformado em uma República, contudo a maioria da população estava acomodada e acostumada com a Monarquia. Com exceção de alguns intelectuais, jornalistas, estudantes e políticos, as convicções ideológicas republicanas não faziam parte do cotidiano da sociedade. Por isso, esta assistiu a tudo perplexa, com curiosidade para saber o que havia e o que iria mudar, pois o povo foi excluído de participar da Proclamação, apenas havia sido comunicado.

Os brasileiros, à época da Proclamação, não participaram da transição, visto que o que havia sido instaurado não foi erguido com a bandeira da democracia. A curiosidade era motivada pela mudança política, a indiferença era que não havia grandes propostas para mudar a economia, haja vista que não existia um discurso para o combate às desigualdades sociais, portanto, a reação do povo foi de espanto, os brasileiros estavam perplexos com a derrubada do império, porque, inclusive, não conheciam outra forma de governo.

Helanny Torres Ferreira

Referências
  • Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Prêmio melhor livro em ciências sociais de 1987 da ANPOCS. José Murilo de Carvalho.
  • Esaú e Jacó (1904) . Machado de Assis.