sábado, 12 de outubro de 2013

Feliz Dia das Crianças




Quando eu era criança eu gostava de muitas coisas de adulto. Gostava da independência, da liberdade, e até mesmo de poder falar sem parecer mal criação. Via-os e admirava-os. Sempre pareciam tão firmes e seguros de si. Não os via chorar. Ao contrário, eles me viam e diziam: ''É ótimo ser criança, pois os pequeninos não precisam se preocupar com as contas para pagar no fim do mês, as decepções, as dívidas, os conflitos amorosos. Os pequenos amam mesmo aqueles que não os amam. Eles percebem a diferença entre um sorriso sincero e um presente dado só para agradar, mas gostam mesmo quando ganham um bombom, seja do padrasto ou da coleguinha. Um doce sempre adoça quem acabou de ganhar um sermão, ops, uma palavra sábia da mamãe. As crianças se derretem com um abraço, mesmo depois de terem a sua internet ou o seu videogame suspenso por período indeterminado. E vão se divertir quando seus pais os levam para dar um passeio, comer um lanche gostoso e sentir que são amados. Simples, é tão simples ser criança. Elas é que são felizes''.

Quando eu era criança eu gostava de muitas coisas de criança. Gostava de inventar coisas. Adorava ver aqueles programas infantis em que se criavam coisas com o que se tinha em casa. Adorava copiar poemas. Achava o máximo os poemas do Manuel Bandeira - pensava até que ele tinha sido um dos criadores da bandeira nacional. Por falar nisso, algumas palavras tinham um significado especial para mim. A Lua era a esposa do sol, e as estrelas seus filhos, por exemplo. Gostava quando minha vizinha me deixava pegar goiaba no quintal dela. Não existiam muros entre nossas casas. Gostava de brincar na rua, de peteca (palavra peculiar, em Belém, para bolinha de gude), pira-pega, garrafão, queimada, pião, boca de forno (especialmente quando eu era a mestra). Amava ouvir as histórias que meu pai contava, ele repetia algumas vezes a da Chapeuzinho Vermelho, sempre com um final diferente, com direito a sustinho no final, e inventava muitas outras para mim e para o meu irmão. Gostava de pegar maracujá na horta da minha casa. Detalhe: a horta era só de maracujá mesmo. Também tinham galinhas, pintinhos, jabutis, passarinhos, patinhos. Coisa mais linda. Amava minha gatinha Nala e o cãozinho Pastor Alemão, o nome dele era esse mesmo, enorme ele era. Gostava de acordar em dia de aniversário com parabéns na cama. Gostava também de poder dormir até às 9h da manhã sem peso na consciência. Gostava do Natais, mesmo quando, em alguns anos, não tinha presente de brinquedo, mas sempre tinha a ceia e a família reunida, melhor presente, só a vida mesmo. Amava minha boneca de pano, não porque eu precisasse cuidar dela, mas porque ela encarnava uma personagem, e porque eu conversava com ela, o nome dela era Vovozinha, contudo um dia a Vovozinha foi embora. Desapeguei e doei a minha boneca, minha tia a deu durante uma viagem para Macapá, ela jogou do navio para as crianças que vinham de canoa em busca de alimentos e doações diversas. Por falar nisso, isso era muito comum aqui na Amazônia. Eu mesma, quando fui passar umas férias com a minha família nas margens do Rio Companhia, origem familiar ribeirinha, passeava muito de canoa e até mesmo ganhei alguns brinquedos dessa forma. Como eu era criança achava isso uma diversão, e ainda não entendia nada de políticas sociais ou direitos humanos, mas compreendi o que minha família me ensinou, não importa o que você tenha, sempre divida. Por falar nisso, era tão bom nadar no rio, correnteza forte, pescar (nessa época eu ainda não tinha amigos vegetarianos e nem veganos), plantar, cultivar. Gostava de sentar na ponte de madeira em frente da casa do meu avô e molhar meu pés no rio, quando tinha maré cheia, e ver o céu, os desenhos nas nuvens, o mistério da mansidão. Como se eu mesma já fizesse parte desse mistério antes mesmo de nascer. Uma das coisas com as quais eu mais gostava de brincar era com papel, fazer brinquedos de papel era o máximo para mim. Gostava de brincar de escritório, eu a chefe, e meu irmão, o secretário. Deve ser coisa de irmã mais velha, sei lá, mas ai se alguém mexesse com o meu irmão, ai mexeria comigo. Brincar de jornalista, então!, era fabuloso, imitava as âncoras dos telejornais, mas o conteúdo respectivo é melhor nem comentar. Era muita imaginação. Ah, tantas coisas, tantas amizades que perduram até hoje, e acredito que por toda a vida. Eu não poderia deixar de mencionar que eu atuei como o ''Amarelo do Arco-Íris'' no teatro da escola - até hoje o meu irmão fala zoando que eu era a ''árvore''. Eu nunca precisei superar isso, porque na verdade até hoje eu tenho orgulho de contar sobre essa peça. Também teve uma vez que saímos as ruas para fazer algum protesto, eu nem lembro do que se tratava, eu era muito criança, mas gostei de andar pelas ruas com um monte de gente unida, crianças e professores, por causa de uma causa específica. Eu aprontava, minha mãe que o diga, ainda bem que a sua ternura sempre foi maior que a sua rigidez. Como era bom ser criança, se alguém me falava alguma coisa da qual eu não gostava, eu logo esquecia. Meu pai me levava para ver a Santinha, no Círio de Nazaré, naquela época, confesso, eu não ficava sem um brinquedo de miriti. Hoje, meu pai está mais perto da Nazinha do que eu (nos céus), e eu me desdobro, porque quero participar do sagrado e do profano do mega evento, da festa da nossa padroeira, digo, amo o círio, mas adoro também o auto do círioÉgua! Eu só queria ser feliz mesmo. 

Peraí, hoje, jovem, amo quando brinco, especialmente, com os meus sobrinhos. Eles até me ensinam e sabem mais do que eu em se tratando de celular e notebook, foi a minha sobrinha quem me ensinou sobre uma rede social chamada Instagram e um tal de Apps, eu nem sei usar isso, mas minha linda afilhada sabe. E ai de mim se não tiver passeio no Tatoo Park, isso não é mais uma mera propaganda, e para não parecer publicidade gratuita, troco por MC Donald's, mas acho que não funcionou muito. Apesar de vivermos numa década de conexões tecnológicas, temos muitas afinidades, amamos flores, pessoas, picolés, aniversários, piadas, charadas, praia, igrejas, museus, andar de bicicleta, e gostamos de conversar presencialmente, sem o prefixo ''tele'' mesmo. Conversamos com Deus, ai sim, entra o tele de telepatia, mais o perto, de proximidade. E a Gaby me fala: ''Tia, a Sra. conversa com Deus do seu jeito, que eu converso do meu, ok''. E ela me fala isso com aquele jeitinho meigo, para não parecer mal criação. Às vezes eu nem sei quem ensina quem, mas acho que eles ensinam mais a mim do que eu a eles, porque para eles tudo é, incrivelmente, possível e fácil. Outro dia, o Pietro inventou uma cidade com os brinquedos dele, e ele chamou de Cidade do Dragão. O Pietro ama capoeira, a Gaby, natação. A Gaby ama criar, imaginar, o Pietro ama executar, fazer. O Pietro quer aprender a tocar escaleta, e eu também, a Gaby quer aprender a tocar violão. Fazemos algum barulho com esses instrumentos, e ousamos chamar isso de música. É muita ousadia para mim, mas para eles, eles estão apenas se divertindo. Meus sobrinhos gostam das histórias que eu conto, com direito a sustinho e final inesperado, mas feliz. Às vezes são eles que me contam histórias, e eu fico admirada, descobri outro dia, por meio deles, que eu conto repetidas vezes a história de Maria e o Pé de Feijão que leva aos céus (com adaptações), e eu nem me dava conta. Circo, bosque, praça, amamos. Crianças são mesmo atentas a tudo. Quer saber, eu continuo querendo a mesma coisa, comer, rezar, amar, mas eu não poderia terminar com esse final para não parecer clichê, e isso não é mais cult, então só quero dançar, orar, cantar, plantar, pintar, ouvir, conversar, amar, sonhar, viver. No final, trata-se apenas de fazer o que se gosta, de respeitar o que o outro gosta, e principalmente de compartilhar as alegrias com o outro, fazendo-o também feliz, isso sim que é a verdadeira felicidade, fé na cidade, fé nas crianças, fé na vida. Diplomacia invisível. O invisível é o que só pode ser sentido. O despertar para o infinito universal. Hoje me permito, de novo, inventar novos significados para as palavras, e novas estruturas textuais (nada de parágrafos curtos por hora), e olha que nem comecei a falar numa linguagem saramandense, mas fecho com um belo-dia-mente das crianças para todos vocês, jovens e johvens.


Helanny Torres Ferreira
Belém, 12 de outubro de 2013

sábado, 10 de agosto de 2013

Sem fantasia


Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer


Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perde-te em meus braços
Pelo amor de Deus


Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu


Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer


De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus
✡ ∞ ❁
Chico & Bethânia


Música ouvida durante a leitura da história de 
Popocatepetl e Xochiquetzal:
Flauta de pã – When the heaven cries (música andina); How deep is your Love; Just the way you are; Love story; and My heart Will go on
✡ ∞ ❁

terça-feira, 23 de julho de 2013

Salmo 18 - O Testemunho do Céu e da Lei - Para Francisco

1. Ao mestre de canto. Salmo de Davi.
2. Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos.
3. O dia ao outro transmite essa mensagem, e uma noite à outra a repete.
4. Não é uma língua nem são palavras, cujo sentido não se perceba,
5. porque por toda a terra se espalha o seu ruído, e até os confins do mundo a sua voz; aí armou Deus para o sol uma tenda.
6. E este, qual esposo que sai do seu tálamo, exulta, como um gigante, a percorrer seu caminho.
7. Sai de um extremo do céu, e no outro termina o seu curso; nada se furta ao seu calor.
8. A lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma; a ordem do Senhor é segura, instrui o simples.
9. Os preceitos do Senhor são retos, deleitam o coração; o mandamento do Senhor é luminoso, esclarece os olhos.
10. O temor do Senhor é puro, subsiste eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros, todos igualmente justos.
11. Mais desejáveis que o ouro, que uma barra de ouro fino; mais doces que o mel, que o puro mel dos favos.
12. Ainda que vosso servo neles atente, guardando-os com todo o cuidado;
13. quem pode, entretanto, ver as próprias faltas? Purificai-me das que me são ocultas.
14. Preservai, também, vosso servo do orgulho; não domine ele sobre mim, então serei íntegro e limpo de falta grave.
15. Aceitai as palavras de meus lábios e os pensamentos de meu coração, na vossa presença, Senhor, minha rocha e meu redentor.
*
Bem-vindo Papa Chiquinho!
Deus supremo, ilumine a estada desse bom samaritano em terras brasileiras.
Que a Fraternidade e o Amor dessa alma franciscana possam conquistar todos os povos e todos os corações.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Moto-contínuo


Um homem pode ir ao fundo do fundo do fundo se for por você
Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você
Pode inventar qualquer mundo, como um vagabundo se for por você
Basta sonhar com você
Juntar o suco dos sonhos e encher um açude se for por você
A fonte da juventude correndo nas bicas se for por você
Bocas passando saúde com beijos nas bocas se for por você
Homem também pode amar e abraçar e afagar seu ofício porque
Vai habitar o edifício que faz pra você
E no aconchego da pele na pele, da carne na carne, entender
Que homem foi feito direito, do jeito que é feito o prazer
Homem constrói sete usinas usando a energia que vem de você
Homem conduz a alegria que sai das turbinas de volta a você
E cria o moto-contínuo da noite pro dia se for por você
E quando um homem já está de partida, da curva da vida ele vê
Que o seu caminho não foi um caminho sozinho porque
Sabe que um homem vai fundo e vai fundo e vai fundo se for por você
Edu Lobo & Tom Jobim

quarta-feira, 17 de julho de 2013

"O progresso da civilização é, em parte, o progresso do Belo" (Meishu-Sama)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O beijo reanimado de Eros a Psique - Antonio Canova, 1793

Amor, desejo, alma. Eros e Psique. Para além da onomástica tradicional, o momento suspenso e eterno que precede o beijo do amado à sua amada revela o esperado sopro de vida, o sentimento que não pode mais ser contido, que transita para o emblemático despertar de um sono letárgico, sem sonhos, para uma existência quimérica, mitológica.

A mortal, ora apática absoluta, ora impulsiva demasiado, descobre que mais que sorte, possui misteriosa ajuda quando enfrenta os perigos mais caudais e turbulentos. Uma presença que a acompanha, mesmo estando ela longe de enxergar, consegue senti-la. Fascínio inebriante mútuo. A alma não morre, reanimada pelo beijo, é imortalizada, e assim Psique e Eros conseguem permissão divina para gozar delírios de intensa felicidade.

Por trás dos perigos que Psique enfrentou estava Afrodite, mãe de Eros. Quando Afrodite pensava que tinha tudo sobre controle, que tinha o mais perfeito domínio do rumo que estava dando para a situação, vieram o destino, as circunstâncias, e mudaram tudo de uma hora para outra, pois quando é para ser, não há nada que possa mudar, nem mesmo o tempo, a distância, as intenções e convicções. O amor converge, cedo ou tarde. Não adianta fugir ou mentir.

Afrodite, crente que o filho seria obediente e seguiria suas ordens, encontrou-se afrontada, porque apesar de Eros não querer romper relações com a sua mãe, o amor que sentia por Psique era mais forte que tudo, ele não podia controlar esse sentir. Estava ele mesmo confinado e liberto por essa explosão que vinha e voltava. Ele não podia mais negar, e apesar de estar nas sombras, continuava iluminando os passos da sua amada.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Como conheci Benedito


Quando estava, ainda na universidade, estudando a prova do Instituto Rio Branco me deparei com um trecho de um texto de Benedito Nunes. Esse nome me soava familiar e distante. Familiar por não ser estranho, alguém de quem eu já havia ouvido falar. Distante porque não conhecia sua obra. Quem era esse paraense, meu conterrâneo, que aparecia ao lado de grandes pensadores brasileiros?

Algum tempo depois, foi realizado, na Unama, um Congresso em homenagem a Benedito. Fiquei muito feliz de saber que poderia conhecer de perto o trabalho dele e também de que a universidade em que eu estudava estava reconhecendo o professor como Doutor Honoris Causa. Como formanda, naquele período, eu não era mais repórter da TV Universitária, senão gostaria muito de tê-lo entrevistado.

Benedito tinha uma simplicidade impressionante, nas poucas palavras que troquei com ele, após sua conferência magna no Congresso, isso ficou bem claro   ah, eu e minha tietagem tímida. Mesmo não tendo oportunidade de ter convivido com o professor, conheci um pouco mais da sua obra após ter me mudado para Brasília, onde ele tem um grande prestígio. Nos livros ou até mesmo nos textos que encontrava na internet, de Bené, a profundidade do seu pensamento é enorme.

Um dos textos que mais me marcaram foi Filosofia da Vida em Dilthey, segundo Benedito Nunes (Hermenêutica e Poesia). Fui procurar respostas e compreensão para a vida anímica, termo que encontrei em Steppenwolf, de Hermann Hesse, para mim, Benedito foi quem soube melhor explicar sobre isso.

Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Max Martins, Dalcídio Jurandir, Mário Faustino e tantos outros escritores tiveram seus trabalhos estudados por Benedito. A leitura de Bené me encantou desde o começo, o que mais admiro na sua obra é que ele não se deixa limitar pelas fronteiras acadêmicas, essas relações são mais que interdisciplinares, são híbridas, especialmente quando se encontram filosofia e literatura.

Neste ano, na XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, na última terça-feira (30/04), foi realizado o seminário Benedito Nunes: Filosofia e Crítica  já até me considero parte da freguesia de Bené, digamos da nova geração. Para minha surpresa, só que não, Benedito está sendo estudado no âmbito Amazônia e Pensamento Social pela professora Maria Stella Pessoa. Não deixa de ser mais um reconhecimento da magnitude de Bené, que inclusive está sendo estudado em proximidade com os estudos do célebre Eidorfe Moreira.

Bené nos deixou em 2011, mas ele permanece vivo na sua obra. Benedito é esse paraense que informa, forma, de um maneira muito peculiar e sagaz. É quem explica, é quem vai além, é quem diz, é quem traduz esse universo da literatura, e é muito mais que isso. O mais fascinante é que seu propósito não é dar a última palavra, mas aguçar, estimular, instigar o leitor a pensar. ‘‘O indizível é o que só pode ser mostrado’’. 

Belém, 1° de maio de 2013