quinta-feira, 3 de maio de 2012

O dia das mães de Klimt

As três idades da mulher *

*Recorte da obra original, cujo poder simbólico expressa vida e morte.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Tamba Tajá

Música de Waldemar Henrique, na voz de Fafá de Belém:


domingo, 19 de fevereiro de 2012

A benção Roberto Silva. Samba é nobreza.

Tietagem pouca é bobagem. Mais um carnaval, na capital federal, riminha sem eufemismos, com um pouco de absinto talvez. Líquido que se fez presente, com cubos de açúcar liquefeitos no fogo brando, que não chega a queimar nada além do torrão. Revendo papéis, quantos rascunhos que continham rabiscos de letras de samba e/ou poesias que, de repente, no meio de uma aula e outra, ou de um fichamento e outro, eu os colocava ali. Nada disso se refere a técnicas de motivação, ou de qualquer outra coisa, talvez uma dispersão em meio a algum tédio repetitivo que para dali em diante se transformava numa euforia que enchia meu mundo particular de vida.

Mundo particular. Alice. Não, não. Esse mundo tem essência brasileira, cores tropicais, que observa esses rincões Brasil afora. O sertanejo, que agora é vizinho, e que com suas festas populares cria uma identidade que confere personalidade a toda uma geração, geração pós-cocacola, também chamada de geração Z. Esse mundo, pseudônimo de quem tenta se distanciar para talvez observar com alguma imparcialidade, essa semana  deu-se conta de que tem em suas raízes a cordialidade entranhada nos seus sentimentos. Parcialidade total. Reticências. Tudo isso, apenas para dizer que gostaria de celebrar o carnaval com um clássico da música popular brasileira, porque afinal estamos em festa, e essas ponderações podem ficar para depois, já que isso são outros carnavais. Eis Juracy, na voz de Roberto Silva e Caetano:

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Sentidos em Menotti Del Picchia*


Ser feliz! Ser feliz estava em mim, Senhora...
Este sonho que ergui, o poderia por
onde quisesse, longe até da minha dor,
em um lugar qualquer, onde a ventura mora;

onde, quando o buscasse, o encontrasse a toda hora,
tivesse-o em minhas mãos... Mas, louco sonhador,
eu coloquei muito alto o meu sonho de amor...
Guardei-o em vosso olhar e me arrependo agora.

O homem foi sempre assim... Em sua ingenuidade
teme levar consigo o próprio sonho, a esmo,
e oculta-o sem saber se depois o achara...

E, quando vai buscar sua felicidade,
ele, que poderia encontrá-la em si mesmo
escondeu-a tão bem, que nem sabe onde está!



*Trecho retirado do livro Juca Mulato, obra-prima de Menotti Del Picchia.  O imortal foi um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922, a qual completa, este ano, 90 anos de vanguarda e modernismo brasileiro.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Manuel Bandeira musicado

          
          O ritmo não dissolveu a si mesmo¹. Ele se eternizou por meio da música. O caminho percorrido pode ser traduzido na qualidade de um itinerário para a poética manuelina². O invisível cedeu lugar ao que antes era tido como o indizível. Dessa forma, o chamado São João Batista da Semana de 1922 - Manuel Bandeira - foi posto e composto em clave. O malungo³ Manuel não foi disco de ouro, mas muitos cantam seus versos.

          Os poemas musicados (a lista não está completa) do observador apaixonado dos sentimentos do povo são:
  1. Berimbau (Ovalle, Mignone);
  2. Trem de Ferro (Viera Brandão);
  3. Cantiga (Camargo Guarnieri; Lorenzo Fernandez);
  4. Azulão (Ovalle, Camargo Guarnieri, Gnattali);
  5. Dona Janaína (Mignone);
  6. Irene do Céu (Camargo Guarnieri);
  7. Na rua do sabão, Macumba de pai Zusé, Boca de Forno (Siqueira);
  8. O menino doente (Mignone);
  9. Dentro da noite (Mignone, Helza Cameu)
          Texto escrito para melodias já existentes:
  1. Modinha de Villa-Lobos, Canções de cordialidade (sob o pseudônimo Manduca Piá);
  2. Uma valsa romântica, Canção (Radamés Gnattali)


¹ Alusão ao livro O ritmo dissoluto.
² Referência à obra Itinerário de Pasárgada
³ Africanismo: companheiro; camarada

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Entre cartas


Seis décadas, 60 anos, mais de meio século de correspondências amorosas. Com apenas barbante e clips poderia se fazer uma exposição de arte (ou seria de amor? ou os dois?) das cartas trocadas entre os dois durante essa luta pela sobrevivência da existência da esperança. Esperança de que talvez os dois pudessem ficar juntos, nem mesmo que fosse num pós-vida ou numa outra vida.

A eternidade desse sentimento os tornava cúmplices dessa trégua, sem tréguas. Trégua que os separava de ficarem, enfim, juntos. E sem tréguas, porque não iriam descansar até ficarem juntos. Por isso se utilizavam desse subterfúgio, dessas cartas para manterem viva a chama, nem que depois fosse preciso queimá-las para fazer uma tocha, e iluminar caminhos, vestígios que os conduzissem ao reencontro. Mil anos, ou mil e uma noites, não importava, estavam dispostos a esperar.

As atitudes dela o intrigavam. Curioso de certo episódio, uma vez, ele ousou ficar em silêncio, silêncio que perdurou semanas. Ela invadiu o parlamento inglês, nos anos 1940, durante a 2° G.M., para protestar contra a guerra e os campos de concentração nazista. Portava uma bandeira branca. Melhor, estava envolta numa bandeira branca, despida, nua e pintada de vermelho-sangue. Foi uma verdadeira polêmica para a época. Atual para nossa geração, escândalo  para a sociedade britânica, que se melindrava com os horrores do holocausto.

Em outra ocasião, mesmo com rugas no rosto, e já visíveis alguns fios de cabelo branco, ela foi a público denunciar abusos de mulheres que eram obrigadas a se vender em troca de comida. A esposa dele (sim ele havia se casado com outra mulher, e ela havia se casado com outro homem) sempre a criticava. - Uma mulher envolvida com política, devia ser comunista- dizia. A esposa num rompante de ciúmes não suportava ver a admiração que seu marido tinha por aquela  mulher, mesmo que isso significasse, em algumas vezes, ir contra suas convicções. Logo, sempre que tinha chance a desqualificava perante seu marido.

Ela o via nos jornais, o ouvia no rádio. Aquele homem influente e poderoso largaria qualquer coisa para atender a um chamado dela. Quantas vezes ele deixou seu gabinete para ir prestar ajuda pessoalmente. Certa vez, ela presenciou uma conspiração para depô-lo, e tratou de avisá-lo. Ele, homem sagaz, agiu rápido e virou o 'feitiço contra o feiticeiro'.

Não só de ditados viviam aqueles dois. Havia também certo trecho de uma historiografia que tinha sido distorcida por ambos. ''Maldição eterna para quem ousar recordar-se das nossas dissensões passadas'' (Caxias). E eles pareciam viver aquela maldição. Para ela, ele era seu ''mais querido''. O elefantinho da Índia (na mitologia Hindu, esses primeiros seres tinham asas e brincavam perto das nuvens) era para eles como um amuleto. Onde viam esse símbolo lembravam um do outro. Como se antes tivessem sido eles mesmos a voarem e a brincarem perto das nuvens.

- Os olhos não envelhecem. Repetiu a neta dela ao homem que servia o chá. Com aquele ar risonho que só as crianças tem ao aprender alguma coisa nova. Anos mais tarde, aquela neta, na vida adulta, venderia aquelas velhas cartas da sua avó, junto com aquele velho baú, que apenas entulhava a sala. Pelo menos quem comprasse aqueles manuscritos saberia reconhecer o valor daquelas palavras ruídas com o tempo. E, assim, salvaria a poesia. Com o passar do tempo, os olhos dessa neta envelheceram.

Não foram amantes. Não iriam trair eles mesmos. Naquela vida, eram amigos. Havia algum código secreto naqueles olhos, que se entendiam, e que se comunicavam, na mais plena harmonia. Algo que vinha de antes, de muito antes. Dizem que as Almas Gêmeas vivem muitas vidas e sempre se encontram, de uma forma ou de outra. Podendo ficar juntas ou não. Diz-se também  que caso um dos dois se encontre num nível de consciência inferior ao do outro, o amor não poderá ser consumado. Teorias. No entanto, ela lembrou desde o primeiro momento em que o viu.

Silenciosamente, a inexatidão daquele dia em que ele partiu a deixou estática. O tempo parou. As nuvens desapareceram, não havia nenhuma no céu. Mesmo ele tendo partido primeiro, ela tinha que continuar a fazer o que deveria fazer. Não podia interromper sua vida, deveria continuar a viver. Consciente ou não, não deixaria que aquelas lembranças se perdessem, e guardou as cartas num baú.

Anos após sua morte, a esposa dele a visitou, para pedir perdão. Os rumores sobre o que ela havia feito, agora se confirmavam. A esposa havia retirado o coração do marido, encravado espinhos, embebido com éter e enterrado do outro lado do Atlântico, no chamado ''outro ocidente''.  Bruxedo que certo alquimista ensinou a preços altíssimos, dívida a ser cobrada após o fechar dos seus olhos. Por isso estava desesperada, temia que a cobrança viesse ao bater as botas. Tudo isso para se vingar do marido, que a preteriu por outra; ela queria impedir que aqueles dois viessem a viver o amor numa outra vida, se é que isso existia, ela não era muito crente, mas o seguro morreu de velho.

Quem tiver espinhos no coração, deve ter muita dor no peito, pensou. O que era afinal a plenitude do amor? Mesmo vivendo décadas por entre cartas, e depois daquela revelação assustadora e desumana, ela se perguntou se um dia aqueles dois amantes iriam se encontrar, mesmo depois de milênios. O marido dela não se importava com as cartas que ela trocava com outro homem, tudo isso era bobagem (pensava diferente da outra preterida), ele era um homem promíscuo, de muitas paixões, talvez por isso ela tenha se casado com ele, para não importuná-la nessa correspondência.

Quando ela se foi, sua neta jogou suas cinzas no oceano. Não sabia o motivo porque sua avó tinha se interessado tanto por correntes marítimas nos últimos tempos, havia livros, bússolas e mapas. Sua neta fez conforme mandava o testamento.  As massas de água que se locomovem não interagem com as águas dos lugares que percorrem. Descoberta interessante para alguém que sabia para onde queria ir.


P.S: Texto inspirado da história ''O grande amor de Churchill''. Os fatos narrados aqui não condizem com a realidade, tampouco com a história original.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

As mulheres ocas


Nós somos as inorgânicas
Frias estátuas de talco
Com hálito de champagne
E pernas de salto alto
Nossa pele fluorescente
É doce e refrigerada
E em nossa conversa ausente
Tudo não quer dizer nada.


Nós somos as longilíneas
Lentas madonas de boate
Iluminamos as pistas
Com nossos rostos de opala.
Vamos em câmara lenta
Sem sorrir demasiado
E olhamos como sem ver
Com nossos olhos cromados.

Nós somos as sonolentas
Monjas do tédio inconsútil

Em nosso escuro convento
A ordem manda ser fútil
Fomos alunas bilíngües
De "Sacre-Coeur" e "Sion"
Mas adorar, só adoramos
A imagem do deus Mamon.

Nós somos as esotéricas
Filhas do Ouro com a Miséria
O gênio nos enfastia
E a estupidez nos diverte.
Amamos a vida fria
E tudo o que nos espelha

Na asséptica companhia
Dos nossos machos-de-abelha.

Nós somos as bailarinas
Pressagas do cataclismo
Dançando a dança da moda
Na corda bamba do abismo.

Mas nada nos incomoda
De vez que há sempre quem paga
O luxo de entrar na roda
Em Arpels ou Balenciaga.

Nós somos as grã-funestas
As onézimas letais*
Dormimos a nossa sesta
Em ataúdes de cristal
E só tiramos do rosto
Nossa máscara de cal
Para o drinque do sol posto
Com o cronista social.


Vinicius de Moraes 
Para viver um grande amor: crônicas e poemas

(*)  Uma das categorias da nova gnomonia, de Jayme Ovalle, 
que classifica os seres e as coisas em dantas, parás, morzalescos, 
kernianos e onézimos, sendo estes ''pés-frios''.
Ver cap. 'A nova gnomonia', em Crônicas da Província do Brasil, de Manuel Bandeira.


''Headpiece filled with straw''
T.S.Elliot:
The hollow men