quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Herança
Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.
Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?
E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?
Cecília Meireles. Poesia completa
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Porquinho-da-índia
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
Manuel Bandeira
in Libertinagem, 1930
P.S.: Especialmente, para Vivian Finger Krause, ou, simplesmente, Vivi
P.S.: Especialmente, para Vivian Finger Krause, ou, simplesmente, Vivi
terça-feira, 17 de julho de 2012
Namorados no Mirante
Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens - a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie - tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.
Eles eram mais antigos que o silêncio...
Vinicius de Moraes
Farol de Alexandria, 280 a.C
quinta-feira, 3 de maio de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Tamba Tajá
Música de Waldemar Henrique, na voz de Fafá de Belém:
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domingo, 19 de fevereiro de 2012
A benção Roberto Silva. Samba é nobreza.
Tietagem pouca é bobagem. Mais um carnaval, na capital federal, riminha sem eufemismos, com um pouco de absinto talvez. Líquido que se fez presente, com cubos de açúcar liquefeitos no fogo brando, que não chega a queimar nada além do torrão. Revendo papéis, quantos rascunhos que continham rabiscos de letras de samba e/ou poesias que, de repente, no meio de uma aula e outra, ou de um fichamento e outro, eu os colocava ali. Nada disso se refere a técnicas de motivação, ou de qualquer outra coisa, talvez uma dispersão em meio a algum tédio repetitivo que para dali em diante se transformava numa euforia que enchia meu mundo particular de vida.
Mundo particular. Alice. Não, não. Esse mundo tem essência brasileira, cores tropicais, que observa esses rincões Brasil afora. O sertanejo, que agora é vizinho, e que com suas festas populares cria uma identidade que confere personalidade a toda uma geração, geração pós-cocacola, também chamada de geração Z. Esse mundo, pseudônimo de quem tenta se distanciar para talvez observar com alguma imparcialidade, essa semana deu-se conta de que tem em suas raízes a cordialidade entranhada nos seus sentimentos. Parcialidade total. Reticências. Tudo isso, apenas para dizer que gostaria de celebrar o carnaval com um clássico da música popular brasileira, porque afinal estamos em festa, e essas ponderações podem ficar para depois, já que isso são outros carnavais. Eis Juracy, na voz de Roberto Silva e Caetano:
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sábado, 11 de fevereiro de 2012
Sentidos em Menotti Del Picchia*
Ser feliz! Ser feliz estava em mim, Senhora...
Este sonho que ergui, o poderia por
onde quisesse, longe até da minha dor,
em um lugar qualquer, onde a ventura mora;
onde, quando o buscasse, o encontrasse a toda hora,
tivesse-o em minhas mãos... Mas, louco sonhador,
eu coloquei muito alto o meu sonho de amor...
Guardei-o em vosso olhar e me arrependo agora.
O homem foi sempre assim... Em sua ingenuidade
teme levar consigo o próprio sonho, a esmo,
e oculta-o sem saber se depois o achara...
E, quando vai buscar sua felicidade,
ele, que poderia encontrá-la em si mesmo
escondeu-a tão bem, que nem sabe onde está!
*Trecho retirado do livro Juca Mulato, obra-prima de Menotti Del Picchia. O imortal foi um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922, a qual completa, este ano, 90 anos de vanguarda e modernismo brasileiro.
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