sexta-feira, 19 de julho de 2013

Moto-contínuo


Um homem pode ir ao fundo do fundo do fundo se for por você
Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você
Pode inventar qualquer mundo, como um vagabundo se for por você
Basta sonhar com você
Juntar o suco dos sonhos e encher um açude se for por você
A fonte da juventude correndo nas bicas se for por você
Bocas passando saúde com beijos nas bocas se for por você
Homem também pode amar e abraçar e afagar seu ofício porque
Vai habitar o edifício que faz pra você
E no aconchego da pele na pele, da carne na carne, entender
Que homem foi feito direito, do jeito que é feito o prazer
Homem constrói sete usinas usando a energia que vem de você
Homem conduz a alegria que sai das turbinas de volta a você
E cria o moto-contínuo da noite pro dia se for por você
E quando um homem já está de partida, da curva da vida ele vê
Que o seu caminho não foi um caminho sozinho porque
Sabe que um homem vai fundo e vai fundo e vai fundo se for por você
Edu Lobo & Tom Jobim

quarta-feira, 17 de julho de 2013

"O progresso da civilização é, em parte, o progresso do Belo" (Meishu-Sama)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O beijo reanimado de Eros a Psique - Antonio Canova, 1793

Amor, desejo, alma. Eros e Psique. Para além da onomástica tradicional, o momento suspenso e eterno que precede o beijo do amado à sua amada revela o esperado sopro de vida, o sentimento que não pode mais ser contido, que transita para o emblemático despertar de um sono letárgico, sem sonhos, para uma existência quimérica, mitológica.

A mortal, ora apática absoluta, ora impulsiva demasiado, descobre que mais que sorte, possui misteriosa ajuda quando enfrenta os perigos mais caudais e turbulentos. Uma presença que a acompanha, mesmo estando ela longe de enxergar, consegue senti-la. Fascínio inebriante mútuo. A alma não morre, reanimada pelo beijo, é imortalizada, e assim Psique e Eros conseguem permissão divina para gozar delírios de intensa felicidade.

Por trás dos perigos que Psique enfrentou estava Afrodite, mãe de Eros. Quando Afrodite pensava que tinha tudo sobre controle, que tinha o mais perfeito domínio do rumo que estava dando para a situação, vieram o destino, as circunstâncias, e mudaram tudo de uma hora para outra, pois quando é para ser, não há nada que possa mudar, nem mesmo o tempo, a distância, as intenções e convicções. O amor converge, cedo ou tarde. Não adianta fugir ou mentir.

Afrodite, crente que o filho seria obediente e seguiria suas ordens, encontrou-se afrontada, porque apesar de Eros não querer romper relações com a sua mãe, o amor que sentia por Psique era mais forte que tudo, ele não podia controlar esse sentir. Estava ele mesmo confinado e liberto por essa explosão que vinha e voltava. Ele não podia mais negar, e apesar de estar nas sombras, continuava iluminando os passos da sua amada.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Como conheci Benedito


Quando estava, ainda na universidade, estudando a prova do Instituto Rio Branco me deparei com um trecho de um texto de Benedito Nunes. Esse nome me soava familiar e distante. Familiar por não ser estranho, alguém de quem eu já havia ouvido falar. Distante porque não conhecia sua obra. Quem era esse paraense, meu conterrâneo, que aparecia ao lado de grandes pensadores brasileiros?

Algum tempo depois, foi realizado, na Unama, um Congresso em homenagem a Benedito. Fiquei muito feliz de saber que poderia conhecer de perto o trabalho dele e também de que a universidade em que eu estudava estava reconhecendo o professor como Doutor Honoris Causa. Como formanda, naquele período, eu não era mais repórter da TV Universitária, senão gostaria muito de tê-lo entrevistado.

Benedito tinha uma simplicidade impressionante, nas poucas palavras que troquei com ele, após sua conferência magna no Congresso, isso ficou bem claro   ah, eu e minha tietagem tímida. Mesmo não tendo oportunidade de ter convivido com o professor, conheci um pouco mais da sua obra após ter me mudado para Brasília, onde ele tem um grande prestígio. Nos livros ou até mesmo nos textos que encontrava na internet, de Bené, a profundidade do seu pensamento é enorme.

Um dos textos que mais me marcaram foi Filosofia da Vida em Dilthey, segundo Benedito Nunes (Hermenêutica e Poesia). Fui procurar respostas e compreensão para a vida anímica, termo que encontrei em Steppenwolf, de Hermann Hesse, para mim, Benedito foi quem soube melhor explicar sobre isso.

Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Max Martins, Dalcídio Jurandir, Mário Faustino e tantos outros escritores tiveram seus trabalhos estudados por Benedito. A leitura de Bené me encantou desde o começo, o que mais admiro na sua obra é que ele não se deixa limitar pelas fronteiras acadêmicas, essas relações são mais que interdisciplinares, são híbridas, especialmente quando se encontram filosofia e literatura.

Neste ano, na XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, na última terça-feira (30/04), foi realizado o seminário Benedito Nunes: Filosofia e Crítica  já até me considero parte da freguesia de Bené, digamos da nova geração. Para minha surpresa, só que não, Benedito está sendo estudado no âmbito Amazônia e Pensamento Social pela professora Maria Stella Pessoa. Não deixa de ser mais um reconhecimento da magnitude de Bené, que inclusive está sendo estudado em proximidade com os estudos do célebre Eidorfe Moreira.

Bené nos deixou em 2011, mas ele permanece vivo na sua obra. Benedito é esse paraense que informa, forma, de um maneira muito peculiar e sagaz. É quem explica, é quem vai além, é quem diz, é quem traduz esse universo da literatura, e é muito mais que isso. O mais fascinante é que seu propósito não é dar a última palavra, mas aguçar, estimular, instigar o leitor a pensar. ‘‘O indizível é o que só pode ser mostrado’’. 

Belém, 1° de maio de 2013

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Raí, jogador de futebol, ladrilhador


O apito ecoou em terras paraoras. Era a hora da passagem do carteiro. Antes da chuva, ele trazia notícias de longe. Depois da chuva, o cheiro da floresta se confundia com o cheiro da saudade. Essa paisagem urbana ilustra a história de seu Raimundo, que chegara em Belém do Pará, cearense, fazedor do seu destino. Vinha do sertão brasileiro, de Messejana, do árabe masjana, que significa prisão. Veio para ganhar liberdade Brasil afora. Livre para encontrar a mulher que ladrilhou a história do seu caminho, Guiomar. Villa Lobos a parte, aos 30 anos, seu Raimundo era íntimo dos livros. Entre cartas, ele vivia. Trabalhava nos correios, na capital paraense.
O migrante nordestino, trabalhador, também ladrilhador, no melhor estilo espanhol – metáfora para quem molda o espaço a seu favor e marca ali sua presença, mudou para a cidade de Ribeirão Preto. Casado com Guiomar, pai de família, rumou para São Paulo. Pois como não podia deixar de ser, a geografia mostra o traçado, rota de muitos nordestinos em busca de oportunidades em terras paulistas. Lá encontrou muitos amigos da sua terra natal. Naquele tempo, as pessoas não viviam conectadas. Elas, simplesmente, viviam. Não existia iPad, iPhone, iPod. Existia ai pode, pode filhos, pode alegria, pode vida. Pela gravidade do amor, foram 11 gestações. É muito amor. Fora do útero materno, sobreviveram seis.
Astros. Paixão. Filosofia. Estava escrito nas estrelas. Sócrates, primogênito de Raimundo e Guiomar. O nome anunciava que a astronomia da antiguidade iria dar lugar a natureza de esportista. Depois veio Sófocles e Sóstenes, que se tornaram engenheiros. Raimundo, médico. Raimar, bacharel em direito e músico nas horas vagas. E Raí, o caçula, craque do futebol. Formavam um time de vôlei completo, mas o talento estava nos pés. Com uma turma dessas, as meninices e brincadeiras mirabolantes não ficavam no quintal. Dona Guiomar ficava louca, como previsto, quando a bola acertava alguma canela descuidada, o divertimento continuava na rua, num campinho perto dali.
Mãe e pai zelosos. A afeição abraçava a família e estendia-se aos agregados. Parentes vinham de longe e moravam ali com eles. O pai Raimundo trabalhava arduamente para dar um tesouro aos filhos, a educação. O menino Raí nasceu quando o pai já estava melhor de vida. A timidez do menino era invadida pela extroversão em campo. Os laços de afeto e amizade com os irmãos perduraram por toda vida. Admirava Sócrates, o irmão mais velho, que havia saído cedo de casa, para conquistar o Brasil com sua intimidade com a bola. 
O tempo passou. O menino parece que cresceu da noite para o dia. O apito ecoou novamente. Dessa vez, num campo de futebol, era Raí. A torcida vibrava. Entendeu que a distância e o tempo negam o direito de ver os seus familiares todos os dias. O passado pueril trazia a lembrança de seu pai. Agora restava uma cadeira vazia. O filho pródigo, ladrilhador, herança de seu pai, criou a Fundação Gol de Letra, e fez do país ocupado um prolongamento orgânico do seu.

Helanny Torres Ferreira
Brasília, 29 de julho de 2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Herança




Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?


Cecília Meireles. Poesia completa

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Porquinho-da-índia



Quando eu tinha seis anos 
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.


Manuel Bandeira
in Libertinagem, 1930

P.S.: Especialmente, para Vivian Finger Krause, ou, simplesmente, Vivi